Os desafios de defender a biodiversidade e o clima
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Os desafios de defender a biodiversidade e o clima

Redação

11 de junho de 2015 | 17h39

Por Ana Carolina Neira, Flavia Alemi, Guilherme Simão, Jéssica Alves, Patrícia de Oliveira e Rafael Aloi

O terceiro dia de palestras da Semana Estado de Jornalismo Ambiental falou sobre biodiversidade e os desafios que o clima enfrenta. O primeiro ciclo contou com depoimentos inovadores e motivantes, como o Projeto Arara Azul e o Instituto Atá, que une gastronomia e cultura. Já o segundo bloco apresentou as dificuldades climáticas que enfrentamos e a importância de tratar o tema de uma forma mais atrativa.

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O renomado chefe de cozinha Alex Atala e o ecólogo e mestre em Gerenciamento Ambiental, Jerônimo Villas-Bôas falaram sobre a necessidade de pensar em todas as etapas que o alimento passa até chegar à mesa. Para Atala, o alimento tem um efeito integrador maior que as redes sociais e deve ser aproveitado para divulgar a biodiversidade que temos no nosso país. “A maior rede social do mundo é o alimento, e a biodiversidade só tem valor quando nós a provamos”, conta.

Atala também destacou a mudança no comportamento dos chefes de cozinha. Segundo ele, atualmente, os chefes encaram a gastronomia de um modo diferente, sem esconder “segredos”, mas compartilhando-os, o que tem impacto positivo muito maior sobre o alimento. “Antes, os chefes de cozinha pensavam que dividir os segredos com poucos era a melhor forma de atrair clientes. Hoje, para ter mais público, é preciso compartilhar”, revela.

Jerônimo é apaixonado por abelhas e destacou a importância de lembrar da diversidade que temos no nosso país, mas que é deixada de lado em detrimento de outras espécies. O ecólogo também defendeu a produção de mel por abelhas nativas. “O Brasil está pronto para produzir toneladas de mel de abelhas, gerando renda para população de todas os biomas do país”, conta.

Jerônimo também destacou que cada vez menos jovens querem trabalhar no campo com a criação de abelhas, o que é uma ameaça para a biodiversidade, já que além de produzirem mel, elas também são responsáveis pela polinização. “Os produtores de abelhas nativas são os guardiães da biodiversidade”, ressalta.

O esforço de manter a Arara Azul longe da extinção

Em sua palestra, a bióloga Eliza Mense mostrou um pouco do trabalho do Instituto Arara Azul. Conhecida pela plumagem colorida e por ser um bicho muito dócil, a arara acabou virando uma vítima do tráfico de animais. Apesar de ter saído da lista de espécies ameaçadas de extinção em dezembro de 2014, isso não significa que ela não corre riscos.

Uma dificuldade enfrentada pelo Instituto está relacionada aos hábitos desses animais, que demoram a iniciar a fase de reprodução e muitas vezes morrem ainda filhotes. “A gente percebe a fragilidade [das araras], porque só começam a se reproduzir a partir dos nove anos de idade e acabam sendo vítimas dentro do próprio meio”, explica Eliza.

Com 25 anos de existência, o Instituto tem diversos motivos para comemorar, graças aos parceiros e à propagação cada vez maior do trabalho de proteção às araras. “Hoje temos um conhecimento muito maior sobre a espécie, criamos novas técnicas de manejo, conscientizamos a população”, conta Eliza.

Falar sobre clima é um desafio presente

Durante o segundo bloco de palestras do dia, com o tema “Para explicar o clima”, Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, explicou que existe uma dificuldade muito grande de se comunicar bem as questões envolvendo o clima. “Esse não é mais um desafio do futuro, mas do presente”, esclarece.

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Rittl conta que o Brasil se localiza em uma zona do globo em que é esperado um aumento das temperaturas acima do normal. Para combater esse problema, segundo o secretário, é necessário políticas de redução de até 50% das emissões de gás carbônico em relação ao ano de 2010. Com isso, sentiríamos uma variação próxima a dois graus na temperatura, o que é considerável relativamente seguro. “Se não fizermos nada, imagine em Manaus, onde se projeta um aumento de oito, nove ou dez graus, além de mudanças nos padrões de chuvas”, explica.

O Brasil é o sétimo maior emissor mundial de gás carbônico, e algumas mudanças climáticas já podem ser vistas no país, como as recentes secas na região Sudeste e no Ceará, as grandes enchentes no Acre, e o tornado em Santa Catarina. “Nos últimos dez anos foi registrado um aumento de 40% de desastres naturais no Brasil. Falta uma visão de longo prazo no país e os investimentos pesados ignoram a questão climática. Precisamos introduzir o tema na nossa visão de desenvolvimento”, explica Rittl.

Os efeitos das mudanças climáticas podem ter uma influência econômica com um “impacto de 5% a 20% no PIB mundial”, segundo Rittl. Alguns dos efeitos já podem ser vistos em vários lugares do mundo, como na Índia, que enfrenta uma grande onda de calor responsável por mais de 2 mil mortos. A Austrália também enfrentou grandes enchentes, e os estados do Texas e Oklahoma, nos EUA, sofreram com eventos climáticos extremos, onde 40 pessoas morreram neste ano. “O clima vai mudar drasticamente e as consequências serão muito mais severas se não fizermos nada sobre isso”, alerta Rittl.

A mudança climática em quadrinhos

O cartunista Caco Galhardo e o jornalista Matthew Shirts apresentaram a história em quadrinhos Heróis do Clima, onde o avô divertido conta tudo que sabe sobre aquecimento global para o neto. A história é retratada em Marte e ilustrada com passagens de grandes pesquisadores, como Al Gore e Michael Mann. O objetivo do projeto é alertar sobre a importância de falar sobre as mudanças climáticas, mas de uma forma carismática e que conquiste o leitor.

A ideia do projeto foi apresentada por Matthew a Caco como um livro didático sobre mudanças climáticas, mas ao ver a temática, surgiu a necessidade de transformar o material técnico em algo atrativo, diferente e que demonstrasse a importância do tema. “A ideia era pegar um assunto chato e colocar humor. O maior desafio foi desapegar do conceito hiperteórico e contar de outro jeito”, explica Caco.

O jornalista também ressaltou a importância de tratar um tema que impacta em todos os outros que estão em alta no últimos dias, como economia e diferenças partidárias. Caco acrescenta que esse assunto estava sendo esquecido, mesmo com as medidas tomadas pelo Governo que aqueciam o setor industrial e tinham consequências diretas no clima. Segundo o cartunista, apesar de ser um tema que estava fora do dia a dia, o livro teve boa aceitação e mostra que vale a pena insistir. “A repercussão foi ótima, principalmente da classe científica, que tem uma importância enorme, e isso mostra que é um exemplo bem sucedido. A ideia é seguir esse trabalho”, conclui Caco.

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