Para Adriana Carranca, ser mulher não dificulta trabalho em países muçulmanos
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Para Adriana Carranca, ser mulher não dificulta trabalho em países muçulmanos

Carla Miranda

20 Outubro 2015 | 20h30

A jornalista Adriana Carranca conta desafios em coberturas em zonas de conflito

Uma das convidadas do primeiro dia, a jornalista Adriana Carranca conta desafios em coberturas em zonas de conflito (foto: Della Rocca/Santander)

Por Gabriela Caesar

 

Ser mulher não é impedimento para trabalhar como correspondente em países muçulmanos. A avaliação é da jornalista Adriana Carranca, repórter especial em zonas de conflito e uma das palestrantes desta terça-feira (20), durante a edição de 2015 da Semana Estado de Jornalismo. Antes de pensar em trabalhar fora do País, porém, Adriana afirma que o repórter deve procurar histórias perto de si e acumular experiência em redação, principalmente na editoria Metrópole, onde ela trabalhou de 2002 a 2010. “Às vezes a história está dentro da sua casa”, disse. Ela lembra que uma de suas matérias surgiu quando, conversando com a faxineira, descobriu que famílias da periferia estavam chamando babás do Nordeste. Sem tempo e escola integral, mesmo as famílias com renda mais baixa precisavam contratar alguém para cuidar dos filhos.

Da mesma forma, Adriana conta que não é preciso viajar para o Oriente Médio para descobrir boas histórias ou conversar com refugiados. “Antes de começar a viajar, eu fiz muita matéria sobre a comunidade muçulmana aqui”, reforça. A jornalista acrescenta ainda que a curiosidade e o interesse a fazem ir, por exemplo, a uma mesquita numa sexta-feira para assistir à peça de teatro em que atuam refugiados e conhecer os novos integrantes da comunidade.

O despertar para conhecer novas culturas se deu em conversas de Adriana com as amigas do mestrado que fez em Londres, na Inglaterra. A turma era formada por estudantes de diferentes religiões e culturas. Uma de suas amigas vinha do Egito, para onde Adriana viajou com outras duas alunas para conhecer o país. Na viagem, o trio também tinha a missão de ajudar a amiga egípcia na escolha do pretendente com quem ela se casaria.

A jornalista resolveu aproveitar o percurso e seguir para o Irã, na sua primeira cobertura internacional. Ela reconhece que naquela época ainda não tinha conseguido se desfazer de estereótipos e esperava uma sociedade que oprimia as mulheres. Já no aeroporto de Teerã, surpreendeu-se quando encontrou mulheres de jeans e tênis All Star que dirigiam e ouviam funk iraniano. Por isso, ela aconselha que não se vá com qualquer visão pré-estabelecida e dê a oportunidade de conversar com todas as pessoas durante a pauta. Para Adriana, também é importante que se passe a conversar mais com as pessoas comuns, em vez de somente porta-vozes e especialistas.

Ela considera ainda que ser mulher a ajudou a conseguir se hospedar na casa de famílias locais e, assim, conhecer de perto aquela realidade. “E a mulher se infiltra melhor por causa do véu”, disse. Também importante, Adriana recomenda muita leitura sobre a cultura local e destaca a diferença de uma rede de contatos com pessoas que moram na região. Quando há necessidade em contratar um tradutor, ela prefere procurar por tradutores que já trabalharam para outro veículo de comunicação, como The New York Times, ou para a Anistia Internacional. O tradutor precisa transmitir confiança, conta Adriana, para identificar locais que sejam perigosos e também costuma ajudar com a indicação de bons personagens.