Perfil – Um exercício
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Perfil – Um exercício

Redação

15 Novembro 2011 | 12h00

Hidrocor

Lucas de Abreu Maia nasceu predestinado a nunca saber o que é o azul. Hoje, aos 25 anos, os feixes de luz proporcionados pela visão residual lhe bastam – ainda que nada enxergue. No Estadão, onde trabalha como repórter de Política, não é mesmo primordial saber descrever a cor da areia na praia. Se fosse, ele conseguiria. Só de ouvir.

Após o curso dos focas em 2009, pensou em Economia, depois em Internacional. Veio a Política em ano de eleições, e ele se envolveu. Sentia-se cru, de um modo que hoje as sugestões de pauta feitas naquela época lhe parecem partes risíveis de um pavoroso conto nonsense.

Aprendeu, a golpes de foice, que ganhar o respeito de quem está na Redação faz parte de um processo lento e quase indecifrável. Descobriu não ser capaz de atuar em determinadas coberturas. O trunfo estaria no seu repertório intelectual e nos laços que poderia forjar com os companheiros de trabalho.

Lucas é solitário, mas tem muitos amigos. O melhor deles é Annie, a labrador amendoada que lhe serve de cão-guia. Confiança, ciúme, exigências. Tudo se mistura na relação dos dois. Ele não mora só, mora com ela. A família, distante a quase 500 km, confia: Lucas está em boas mãos.

Desde o nascimento, os pais sabiam o que iria acontecer ao filho. A odisseia até a cegueira total enveredou por afagos nas crises de choro, vontade de acompanhar os dois irmãos mais velhos em suas experimentações, desconforto com o braille e a procura por um método especial para estudar a escrita. Lucas só conseguia discernir o que era desenhado com hidrocor preto em superfícies brancas. Só assim, até que a internet acelerou o seu processo de comunicação. Tinha oito anos quando lhe jogaram o véu, mas ele jamais se esquecerá dos momentos em que enxergava beleza nas escalas de cinza.

Lucas também é poeta. Prefere o produto que obtém com o encadeamento de rimas. É fã de Fernando Pessoa, Drummond, Dostoiévski e Saramago. No tempo livre, lê. Sobre política, em primeiro lugar. Envolveu-se demais com o tema e por isso continua se assombrando ao ansiar diariamente pela edição do Jornal das Dez, momento em que deveria relaxar. Enquanto escreve, escuta Tori Amos. Música emocional. Música de mulherzinha com piano, diz ele. É nerd e também gosta de “enfiar o pé na jaca”. Balada com os amigos, sempre que sempre.

Considera o senso de justiça a sua grande virtude e o egoísmo a sua mais pungente fraqueza. “Também tenho traços de arrogância, mas não vejo isso como um defeito”. Para ele, chamar alguém de presunçoso é um mecanismo de defesa que mascara incompetências.

Prático, vive a vida que tem. Enxergando mais do que deveria.

“É que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos”, diz Saramago em seu Ensaio Sobre a Cegueira; declaração que talvez nos ajude a compreender o fato de Lucas desconsiderar qualquer expectativa de cura. Os possíveis traumas compensariam? Em uma situação hipotética, ele crava: “Não sei se quero, daqui a 20 anos, descobrir que o meu marido é um horroroso”. E fala isso com o mesmo brilho nos olhos. E ri, ciente do que lhe basta.

Leandro Igor Vieira, de 26 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)