Pseudônimo, colete à prova de balas e privacidade: os cuidados de Cid Martins

Pseudônimo, colete à prova de balas e privacidade: os cuidados de Cid Martins

Convidado da Semana Estado de Jornalismo, o repórter investigativo Cid Martins, da Rádio Gaúcha, detalhou as medidas de segurança que toma diante dos riscos da profissão

Redação

24 Outubro 2017 | 18h14

Cid Martins (direita) falou sobre os desafios do jornalismo investigativo

Por Olga Bagatini

Repórter de rádio mais premiado do Brasil, Cid Martins é conhecido por suas reportagens investigativas, policiais e temas relacionados à segurança pública. O envolvimento com essas questões por vezes colocam em risco a sua própria segurança. Ele já recebeu ameaças de morte, foi perseguido na saída da redação e precisou deixar Porto Alegre por três semanas. Para se proteger das ameaças, ele assina matérias com o pseudônimo “Cid”, mantém um colete a prova de balas e evita publicar fotos nas redes sociais.

“Não tem paranoia, mas procuro ter cuidado. Até 2012 era pior. Eu não aparecia em fotos de jeito nenhum. As pessoas me ligavam ameaçando, diziam que sabia onde minha esposa trabalhava”, contou Cid, convidado da Semana Estado de Jornalismo. “Uma vez espancaram o vigia da portaria da rádio e disseram que se eu não parasse com as matérias, ia acontecer coisa pior comigo”.

Cid não é o nome verdadeiro do repórter. Desde o início da carreira, ele optou por usar um pseudônimo, já pensando em seguir na área investigativa e também para evitar que o público descobrisse informações pessoais ou maneiras de encontrá-lo. Cid não tem telefone pessoal, apenas o do trabalho. Familiares precisam ligar para o número de sua esposa para conseguir falar com ele. As redes sociais têm poucas fotos e são exclusivas para amigos próximos.

O jornalista já participou de coberturas tensas, como os atentados do PCC em São Paulo, em 2006, quando pediu para acompanhar repórteres paulistas para se sentir mais seguro, e o processo de pacificação do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, em 2010. Na volta para Porto Alegre, Cid quis fazer um curso de guerrilha ministrado pelo BOPE, pago pela Rádio Gaúcha, e solicitou a compra de coletes à prova de balas de alta qualidade.

Ele teve que sair de Porto Alegre por três semanas por causa de uma matéria que denunciava abuso de autoridade policial e chegou a ter uma arma apontada para ele durante uma entrevista.

“O cara só aceitou dar entrevista com uma arma engatilhada e apontada para a gente. Era policial, integrante de um grupo de extermínio, e pressionou para que a gente não fizesse perguntas que revelasse a identidade dele ou do grupo”, afirmou o jornalista.

Os riscos trouxeram o devido reconhecimento. Cid já recebeu mais de 50 prêmios e é o jornalista mais premiado do Rio Grande do Sul e o repórter de rádio mais premiado do Brasil. Ele acredita que, para uma matéria ser premiada, ela não deve ser feita pensando em agradar, mas para criticar.

“Não vou ser hipócrita. Os prêmios ajudam a ter reconhecimento nacional. Por causa deles, recebi convites para trabalhar no Rio e em São Paulo e consegui o emprego na Rádio Gaúcha”, diz Cid. “Mas tem que ser critico. Não dá pra fazer um prêmio com base no que o patrocinador quer. A matéria tem que se encaixar no prêmio, e não o contrário”.

O repórter, que entrou na área investigativa ao dar continuidade à cobertura de casos e inquéritos abandonados pela polícia, ainda deu um conselho para os jovens jornalistas que querem seguir na área investigativa.

“Tem que seguir sua intuição e ter diferencial. Observar a redação e não fazer só o que o chefe pede. As pessoas falam de desemprego, que não tem vaga, mas se você tiver um diferencial, você se mantem no emprego, ganha prêmios, reconhecimento e ainda faz o que você gosta.”