As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Que privilégio

Redação

19 Setembro 2011 | 23h30

Na última quinta-feira, os jornalistas do Estadão Edison Veiga e Vitor Hugo Brandalise falaram de um tema que desperta a atenção de muitos de nós, focas. A insegurança na hora de apurar, iniciar uma conversa na rua e entrevistar personagens é uma situação comum entre todos os jornalistas – como bem descreveu o foca Thiago Lasco no post Medo da Rua.

Vitor Hugo também mencionou que, apesar do temor inicial, a insegurança da entrevista e da abordagem passa logo na segunda pergunta. Quando o entrevistado começa a falar de sua vida, e a mostrar uma realidade completamente diferente da que estamos habituados, a insegurança dá lugar a uma sensação curiosa que mistura orgulho e sensibilidade. “Muitas vezes saio das entrevistas pensando: ‘Que privilégio conhecer esta história'”, disse.

Não é por arrogância ou por achar que o jornalista é um espectador privilegiado dos fatos. Pelo contrário, é até uma demonstração de humildade reconhecer as tantas outras histórias de vida, movimentos e situações inusitadas, atitudes e pensamentos importantes que não imaginávamos existirem e que passamos a descobrir no exercício da profissão.

Nesta curta trajetória de foca, já pude vivenciar tal sensação. Na pauta trabalhada na última semana, sobre cemitérios da capital, conheci Marina Ribeiro, uma senhora de 63 anos que trabalha de domingo a domingo em Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte. Viúva, ela começou a atividade de jardineira há 13 anos. Realizando a manutenção de 30 jazigos e túmulos do cemitério. Por três anos, esta foi sua única fonte de renda, até conseguir receber a pensão do marido, também jardineiro. Em uma curta conversa ela dividiu, com sabedoria e sensibilidade, sua impressionante história de vida – da vida de retirante do interior do Ceará, do tempo em que passou fome e dificuldades em São Paulo, até a conquista de sua casa própria e as dificuldades para mantê-la.

Sem dúvida, foi um privilégio ouvi-la naquele momento, para questionar aquilo que eu, recém-chegado a São Paulo, poderia chamar de dúvida, dificuldade e insegurança. A oportunidade de conhecer boas histórias em personagens simples é a melhor forma de incentivo para vencer as resistências iniciais à apuração, às entrevistas e ao trabalho de campo. Às vezes, jornalisticamente, uma entrevista não nos rende o esperado. Mas há sempre um ganho ali, nem que seja para ampliar a visão que temos (e que incorporamos às matérias) sobre a realidade à nossa volta.

Antonio Pita, de 24 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)