Repórter mexicana aposta no jornalismo colaborativo em defesa dos direitos humanos
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Repórter mexicana aposta no jornalismo colaborativo em defesa dos direitos humanos

Representante da Connectas defende a colaboração para investigar a realidade latino-americana

Redação

27 Setembro 2018 | 22h33

Por Carlos Henrique Costa

Priscila Hernandez, repórter mexicana da Connectas. Foto: Sara Baptista


A
premiada repórter mexicana Priscila Hernandez trabalha na Connectas, uma plataforma de jornalismo colaborativo com foco na cobertura de direitos humanos na América Latina. Criada há 5 anos por Carlos Eduardo Huertas, a iniciativa sem fins lucrativos tem representantes em mais de 14 países. A organização opera por meio de um hub que fornece apoio logístico e profissional para seu corpo de colaboradores espalhados por diversos cantos da região.

“A Connectas realiza suas atividades buscando independência, qualidade e trabalho em rede, abordando temas de interesse que vão além das fronteiras”, esclarece Priscila, que participa da Semana Estado de Jornalismo e visita o Brasil pela primeira vez. A jornalista explica que a iniciativa tem sede em Bogotá, onde está a direção. É lá que se realiza o suporte digital e administrativo da organização, que arrecada fundos para as bolsas dadas aos repórteres que propuserem as melhores matérias investigativas.

De acordo com Priscila, a seleção de pautas é realizada duas vezes ao ano. No processo, profissionais de toda a América Latina apresentam suas propostas. Elas são analisadas pelos editores, que escolhem as melhores, mais viáveis e de maior alcance. A partir daí, os autores dos projetos contemplados ganham apoio para desenvolver suas histórias. Eles recebem diferentes tipos de suporte: desde recursos para viagens até auxílios no desenvolvimento de especiais multimídia e/ou interativos.

Além disso, há o acompanhamento editorial. Segundo Priscila, “essa ajuda é a mais significativa, já que os jornalistas podem estar isolados e ter um auxílio é muito importante”. Há um grupo remoto com editores que acompanham os repórteres em diferentes países. Aliás, é justamente essa a função da mexicana, que realiza uma “residência, parecida com as especializações dos médicos”. Ela tem que acompanhar profissionais que estão fazendo investigações colaborativas ou locais na Venezuela, Bolívia e Chile. “Desde fevereiro estou conhecendo ainda mais a organização. Eu já vinha participando de propostas de investigação e depois me convidaram para entrar no Connectas. Agora, como residente, estou acompanhando outros jornalistas. Já eu tenho a companhia de editores, como Carlos Eduardo [Huertas, diretor da iniciativa]. É depois da residência que passamos ao cargo de editor, mas as decisões são tomadas sempre conjuntamente. Isso é algo que me atrai na iniciativa, além de aprender a trabalhar com outros jornalistas para que juntos possamos fazer uma investigação ainda melhor”, conta.

Para ilustrar a dinâmica de trabalho da plataforma, Priscila destaca boas matérias produzidas em colaboração. E o Brasil aparece em algumas histórias: é o caso do especial “As últimas prisioneiras dos nazis na América Latina”, que envolve vários países em que se escondiam obras de arte roubada por nazistas.

Outro exemplo emblemático é o trabalho colaborativo sobre o preconceito contra mulheres trans em El Salvador, Guatemala, Honduras e México. Ao serem ameaçadas por gangues guatemaltecas, salvadorenhas e hondurenhas, as vítimas fugiram para os EUA. Na passagem pelo território mexicano, porém, as “Transexuais sem terra” foram ainda mais discriminadas. A reportagem foi realizada por Priscila e outros dois repórteres, um em cada país (México, El Salvador e EUA).

A situação de instabilidade da Venezuela também rendeu boas produções. “Relatos do absurdo” trata das dificuldades enfrentadas pela população em meio às crises econômica, social e alimentar. Já “Por trás da máscara da OLP” investiga os crimes de uma polícia do governo Maduro que está violando direitos humanos e chegou a executar opositores.

No Brasil, o cenário não está alarmante como o da nação chavista, o que não significa que não existam pautas a serem investigadas em nosso País. Entretanto, a Connectas ainda não tem um representante por aqui. É por isso que Priscila destaca a importância do evento realizado pelo Estado. “É fundamental estreitar as relações com os colegas brasileiros para aproveitar o potencial investigativo da realidade local”, salienta Priscila, que inspirou os jovens presentes em sua palestra a apostar no jornalismo colaborativo. Durante sua exposição no painel “Novos Rumos”, a mexicana concluiu: “O silêncio não pode ser uma opção”.