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Sobre como contar histórias

Redação

14 Outubro 2011 | 23h00

Esta semana revi um espanhol. Ele veio do outro lado do Atlântico para nos mostrar que o jornalismo pode ser um pouco mais literário, um pouco mais próximo das pessoas, e muito mais como a realidade do mundo. Essa, que é múltipla e multifacetada, e tantas vezes passa despercebida diante dos nossos olhos e embaixo do nosso nariz.Tive uma semana de aulas de teoria da comunicação com o jornalista Paco Sánchez em 2009. Aproveitei um convênio da minha universidade e fui para a Galícia, na Espanha, estudar comunicación audiovisual. Escutei e aprendi, uma pequena parte do muito que nos foi ensinado nesta última semana, em que o reencontrei. Naquela oportunidade, ele nos recomendou ler este texto: “La escritura como modo de vida (Pomar)” . Não li.

Agora, criei vergonha na cara, e na segunda recomendação, li. “Há uns anos, quando me perguntavam quais qualidades deveria possuir um estudante de jornalismo, um bom jornalista ou qualquer comunicador, costumava responder – com a ênfase excessiva de quem pensa que descobriu o Mediterrâneo – algo assim: ‘Um bom comunicador não é aquele que domina umas técnicas ou habilidades mais ou menos mecânicas, e, sim, aquele que é capaz de: saber olhar, saber escutar, saber pensar e saber expressar aquilo que viu, escutou e pensou’.”

Um mês após as aulas que tive com Paco em La Corunha, fiz um mochilão pela Europa, para aproveitar o tempo que restava até a volta ao Brasil. Em Paris, após uma noite absurdamente frustrada em um hostel no Quartier Latin, fui para outro, mais afastado, mas bem melhor frequentado (e ainda era mais barato). Lá, conheci outros mochileiros, com histórias muito parecidas com a minha: universidade, ia formar muito cedo, experiência internacional, blá, blá, blá.  Conheci também três carecas. Infelizmente, não lembro seus nomes. Lembro apenas dos rostos, do tipo físico e da história deles.

Os três eram brasileiros, do interior de seus respectivos Estados (que não recordo quais eram). Ligavam todos os dias para suas famílias. Aquela coisa básica: “Tudo bem por aí? Está frio? Como está o mano(a)?”. Eu não ligava quase nunca para casa.

O maior deles lembrava o Adriano, agora um jogador fora de forma no Corinthians, dos tempos de seu auge na Inter de Milão. Os outros dois, mais baixos que eu, tinham cerca de 1,70 metro, mas uns 20 centímetros a mais em ombros. Estavam treinando há três meses na França para servir na Legião Estrangeira.

Fiquei, com meus preconceitos, um tanto boquiaberto. Eram soldados treinados que falavam pilhas de palavrões e queriam festas todos os dias, até mesmo um certo tipo de divertimento pago por hora. À parte isto, e talvez por isso, eram figuras extremamente agradáveis. Empolgados e contagiantes, em especial o grandalhão.

No meu último dia em Paris, o Adriano da Legião Estrangeira, com seus colegas, se juntou ao nosso grupo de mochileiros à mesa do bar do hostel. E começou a descer jarra atrás de jarra de cerveja. Perdi a conta e a memória de quantas foram. Todo mundo se divertiu absurdos.

No dia seguinte fui embora. Os três também partiam nesse mesmo dia, mas não nos vimos na saída do hostel nem da cidade. Escutei toda a história em janeiro 2009, e a ficha só caiu em 2011. Aqueles dias em que estavam em Paris eram suas férias do treinamento, que tinham acabado de completar. Três dias de descanso, antes de irem lutar no Afeganistão.

A esbórnia era o escape de tudo que não puderam aproveitar durante o treinamento e a vida (só passaram a receber um salário decente quando saíram do Brasil e se alistaram na França). Viveram ali, naqueles três dias, o que talvez não vivessem nunca mais, sem a certeza de que retornariam da guerra. Agora, queria lembrar seus nomes, ter algum contato, para ouvir o final da história que ainda não estava feita. Não lembro, não tenho e não posso, nem ao menos sei se eles ainda estão por aqui.

Thiago Santaella, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

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