Tendência é jornalismo tradicional adotar técnicas de apuração do jornalismo de dados
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Tendência é jornalismo tradicional adotar técnicas de apuração do jornalismo de dados

Carla Miranda

19 Outubro 2016 | 21h04

Por Lígia Morais e Leonardo Ribeiro

No segundo dia da Semana Estado de Jornalismo, o repórter do Estadão Dados Rodrigo Burgarelli, e Thiago Mali, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), abordaram em suas palestras o uso de dados na construção de reportagens. Para eles é um consenso de que este método vai deixar de ser um diferencial, como é hoje, para se tornar obrigatório na prática jornalística. “Existem informações que os repórteres não conseguem descobrir perguntando para as pessoas, é preciso perguntar para as planilhas”, diz Burgarelli. “Obter dados, informações, estatísticas, sobre determinados assuntos vai ajudar com que o repórter construa uma história mais interessante”, afirma Mali.

À esquerda, o jornalista Rodrigo Burgarelli e, à direita, o jornalista da Abraji Tiago Mali (Foto: Alline Magalhães e Mariana Machado)

O desafio atual é como tornar a prática do jornalismo de dados cada vez mais constante nas redações. Além do investimento na capacitação é preciso que os repórteres tenham mais disponibilidade. “No tempo em que ele talvez fizesse várias notas curtas e rápidas, ele vai fazer uma matéria que vai demorar mais, mas com uma sacada de jornalismo de dados”, diz o jornalista da Abraji. “Isso é um impeditivo no sentido de que você não produz tanto conteúdo com o mesmo tempo”, completa.

Apostar no jornalismo de dados vale à pena. Para Burgarelli, o repórter ganha força, pois passa a trabalhar com fontes primárias – como uma planilha de orçamentos do governo, por exemplo, e não com um especialista para intermediar estas informações. “Minha maior alegria foi quando eu fui entrevistar uma empresa sobre dados que eu levantei para uma matéria e a própria empresa, que publicou essas informações, não tinha feito a análise que eu fiz”, conta o jornalista do Estadão. “Em boa parte das vezes, as melhores histórias com jornalismo de dados usam a técnica como ponto de partida e não como ponto de chegada”, afirma Mali. Burgarelli comenta ainda que, por causa do protagonismo do repórter, é preciso ter cuidado extra com a apuração e trabalhar em equipe na hora da checagem.

Para os jornalistas que estão começando, perder a aversão aos números é o primeiro passo. “Com alguns conceitos de matemática e estatística descritiva, que não são muito complicados, você consegue obter informações muito interessantes”, diz Tiago Mali. “É preciso ver o jornalismo de dados além do programa Excel, ele é um método”, afirma Burgarelli. O jornalista do Estadão ainda recomenda os cursos oferecidos pela Abraji e os cursos, em inglês, do Knight Center e do Coursera. Burgarelli também fala para os jornalistas acompanhem além dos projetos feitos pelos jornais brasileiros, os de publicações estrangeiras – como os do jornal The New York Times e da revista The Economist.

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