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Um pouco de amor em São Paulo

Redação

13 Setembro 2011 | 08h00

(Crônicas paulistanas – Pequenas verdades jornalísticas)

Seu Verdi caminha pela Avenida Paulista à noite, vendendo revistas e implicando com os fumantes. Não gosta que o chamem de mendigo, e tem boas indicações de cinema para oferecer. Um rapaz entregando panfletos, abordado por ele, resmunga: “Em gente que nem você eu taco fogo”. Seu Verdi não se abala, e ainda é capaz dos abraços mais sinceros, com os olhos brilhando de gratidão, para quem compra suas revistas. Mesmo que sejam fumantes.

Victor mora num quarto sem janelas, e seca a roupa no ventilador. Parou de fumar e agora lota a geladeira (que divide com outros quatro) de verduras e legumes. Tropeça nos chinelos toda vez que sobe e desce as escadas, muitas escadas, que o levam até a luz do sol. Do quarto ao lado, dá pra escutar até arrotinhos, por isso ouve reggae em volume alto. Na madrugada, sem sono, Victor escapa pro quarto da frente. O que faz com a Viviane, tem de fazer bem quietinho. Victor sempre acorda sorrindo.

Mariana e Gabriela não têm muito tempo pra namorar. A primeira mora com a irmã em São Paulo, “fugida” de casa porque os pais não aceitaram bem a outra. Gabriela ainda mora em Jundiaí com a mãe, que fez uma cirurgia. Precisam se encontrar às escondidas, como fazem há quase um ano. Mas estavam abraçadas embaixo de uma árvore no Parque do Ibirapuera, na tarde ensolarada de quarta-feira. Elas ficaram sorrindo quase uma hora, ensinando amor para uma jornalista, em troca de uma flor amarela.

Aparecida perdeu alguém querido. Entrou no Instituto Médico-Legal esfregando uma mão na outra, o olhar abstrato. O desespero naquele gesto era indizível. Eu estava lá para uma reportagem, precisava entrevistar alguém – deadline para a mesma noite. Era a última chance. Aparecida nem olhava para os lados. Seu andar decidido era o das pessoas para quem o local de destino já não importa. A garganta trancou e os olhos se encheram de lágrimas. Amor, em São Paulo, pode ser sacrificar uma matéria. Minha perda é pouca.

Luiza Calegari, de 22 anos, é formada em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (UEL)