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Uma vida doce, mas curta

Redação

28 Setembro 2011 | 23h00

Segunda-feira passada, Luiz Felipe Pondé contou aos focas um mito de criação do universo (é sempre uma tragédia que nos antecede). À mulher e ao homem primeiros foi dado escolher como seria a vida, eternamente. Com uma banana e uma pedra à frente, o império dos sentidos foi determinante. Ambos lamberam tanto a pedra quanto a banana, e escolheram, é claro, a segunda. Dessa forma, o nosso legado: uma vida doce, porém curta.
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Na aparência, o jornalismo é ofício de apontar as pedras. O preço do feijão que subiu, a venda de uma empresa brasileira para um conglomerado multinacional, a morte de uma língua indígena nos confins da Amazônia, a dor de um sobrevivente da tragédia ininterrupta no Oriente Médio. Produzir assuntos para a mesa do bar, provocar indignação, derrubar ministros – são as nossas formas de mudar o mundo.
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Mas essa mineração também nos traz, muitas vezes de surpresa, pequenas gemas preciosas. Quando a dor da perda é amenizada por uma homenagem respeitosa. Quando damos voz ao lado mais fraco da corrente, tantas vezes silenciado. Quando dois amigos, de opiniões opostas sobre um determinado tema, encontram eco aos seus argumentos nas páginas do jornal. Ou então, simplesmente, quando alguém se depara com uma reportagem sobre a sua banda preferida no caderno de cultura.
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Talvez o conselho mais valioso em relação à profissão tenha sido mesmo o primeiro, dado por Chico Ornellas assim que pisamos na sala de treinamento: não avalie. O julgamento prejudica, só o aprofundamento esclarece. Não dá pra ser jornalista e não questionar, não gastar todos os vieses dos fatos “até a dor”, como diz o nosso colega Davi. Ninguém vai ser um bom profissional sem empatia pelo personagem, pela fonte, pelo leitor. As matérias mais simples sempre repercutem na vida de alguém – é esse o critério essencial da noticiabilidade, tão esmiuçado durante a formação acadêmica.
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No fim, importa que consigamos traduzir, num exercício supremo de concisão, as camadas ocultas da notícia. Predestinados que fomos antes mesmo da largada, precisamos lembrar que a vida é curta, mas sempre pode ser doce. O poeta curitibano Paulo Leminski talvez não conhecesse o mito da pedra e da banana. Mas cantou com uma singeleza que almejo: “Mesmo que a Terra não passe da próxima guerra / Valeu. Mesmo assim valeu”.
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Luiza Calegari, de 22 anos, é formada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (UEL)