Vida de setorista no Planalto Central
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Vida de setorista no Planalto Central

Redação

06 de dezembro de 2011 | 12h22


O lugar do sonho de todo jornalista de política? É, há quem diga isso. Mas cobrir Palácio do Planalto vai muito além do glamour que o termo “setorista da Presidência da República” sugere. Coisas que não chegam ao leitor, mas atingem todos os cerca de 40 jornalistas que acompanham de perto a agenda da presidente Dilma Rousseff.

Estar próximo dos tomadores de decisão do País faz parte da vida por lá. Mas isso é conhecimento geral. O que nem todo mundo sabe é que as notícias ouvidas nas rádios, lidas nos sites e nos jornais de todo o Brasil são, por diversas vezes, fruto de horas ao sol, chuva, sentados no chão ou em pé. À espera de declarações sobre as inúmeras reuniões que ocorrem diariamente em Brasília, sempre há jornalistas na porta de ministérios, do Palácio da Alvorada — a residência oficial da presidente — ou debaixo de prédios onde moram os líderes do governo. Agitação normal, aguçada este ano pelos vários escândalos que já levaram à demissão sete ministros.

A falta de horários tão típica da vida de jornalista se diferencia, neste caso, pela rotina diretamente ligada à agenda da presidente. Setorista só deixa o comitê de imprensa da Palácio do Planalto quando, teoricamente, nada importante está ocorrendo — com sorte, depois das 20h as coisas começam a se acalmar. Ou seja, implica ficar horas sem comer ou até mesmo beber água ou o salvador cafezinho — vício da maioria — no aguardo de decisões, notas oficiais, repercussões.

Dizem que todo bom jornalista precisa estar antenado no que ocorre no País e no mundo. E lá isso é realmente essencial e diariamente testado. Todos os acontecimentos de grande destaque, de uma forma ou outra, chegam lá. No mesmo dia, pode-se acompanhar uma coletiva com algum governador que esteve com a presidente para tratar das demandas do Estado representado, um lançamento de programa de crédito para micro-empreendedores, outra coletiva com trabalhadores rurais que fizeram uma passeata pela Esplanada dos Ministérios, e no fim ainda podem surgir reuniões e negociações para a demissão e posterior sucessão de algum ministros alvo de denúncias.

Enquanto as muitas horas passam, há momentos de agitação intensa, mas também de calmaria, esperas e ansiedade. Ao mesmo tempo em que surgem brechas para outras apurações, há também conversas e risadas entre os coleguinhas. Apesar de todas as intempéries, a convivência, mesmo que forçada por cerca de 10h, às vezes 12h por dia, acaba trazendo mais que cansaço: boas amizades. Vem daí, o companheirismo inegável entre a maioria. Assim, além de gratificantes, às vezes empolgantes, outras vezes corridos, estressantes, odiosos, os dias por lá valem à pena…

O ex-foca Rafael Moraes Moura (turma de 2009), atual setorista do Estadão na Presidência da República, relata seus dias no Palácio do Planalto:

“A vida do setorista de Palácio do Planalto está ligada à da presidente Dilma Rousseff. Cabe ao repórter que cobre o Planalto monitorar cada passo da presidente– ou seja, estar onde ela estiver, e sempre checar a sua agenda, para ter a certeza de não perder nada (a agenda é divulgada aqui: http://www2.planalto.gov.br/imprensa/agenda/agenda-da-presidenta-1)

É uma espécie de parasitismo a distância, já que ficamos todos reunidos em um comitê no térreo, andares abaixo de Dilma, sem ter noção de quem, de fato, entra e sai do gabinete da presidente. A maioria das autoridades que se encontra com ela sai sem falar com a imprensa, o que dificulta a apuração — daí a importância de fazer contatos com assessores, deputados e senadores, etc.

Para cobrir a presidente, é fundamental ter uma noção panorâmica do que ocorre no País — conflitos agrários no Pará, enchentes no Rio de Janeiro, discussão da meia entrada para a Copa no Congresso Nacional, aprovação da Comissão da Verdade, nomeação para o STF, enfim, não importa “o que” ou “onde”, tudo transborda no Planalto.

Há também os visitantes que pegam todo mundo de surpresa: no ano passado, Silvio Santos surgiu aqui para falar com Lula. Um homem armado entrou na recepção meses atrás, assustando a todos. Manifestações na Praça dos Três Poderes, à frente do palácio, também são comuns.

Na sucursal do Estado em Brasília, não há divisão entre agência e jornal, ou seja, todo mundo escreve para os dois meios, o que exige não apenas apuração detalhada e minuciosa dos fatos, mas também rapidez e agilidade no envio de textos. Quando algo é urgente, antes mesmo de bater todo o texto, “piscamos” frases da presidente para o serviço de Broadcast.  A cobrança pelo instantâneo já fez o laptop substituir os bloquinhos de anotação.

Além da presidente, ficam no Planalto e seus anexos o vice-presidente Michel Temer e os ministros Ideli Salvatti (Relações Institucionais), Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), Gleisi Hoffman (Casa Civil), Helena Chagas (Comunicação Social) e José Elito (Gabinete de Segurança Institucional). Sempre há algo acontecendo.”

Débora Álvares, de 23 anos, é formada em Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB)