Violência e direitos humanos abrem o terceiro dia da Semana Estado
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Violência e direitos humanos abrem o terceiro dia da Semana Estado

Carla Miranda

20 Outubro 2016 | 16h09

Por Paulo Palma Beraldo e Elisa Clavery

O terceiro dia da Semana Estado de Jornalismo começou com palestras das jornalistas Suzana Varjão e Cláudia Belfort sobre as violações de direitos na mídia brasileira. Pesquisadora da ANDI – Comunicação e Direitos, Suzana focou na qualidade da mídia e ressaltou a importância do enfoque das matérias. “A partir do recorte e do tratamento editorial dado a uma matéria, nós emitimos, sim, um discurso”, diz.

De acordo com Suzana, há violações de direitos na mídia diariamente, e algumas chegam a desrespeitar leis nacionais. Em análise da ANDI feita durante um mês em matérias de 28 programas policiais de rádio e televisão de 10 capitais brasileiras, foram observadas 4.500 violações de direitos, entre eles exposição indevida das famílias, incitação a crimes e violência e identificação de adolescentes em conflito com a lei, por exemplo. “Estes programas invadem a barreira do entretenimento e incitam a população a descumprir as leis”, afirma Suzana.

Uma das principais violações, para a pesquisadora, é divulgar nome e imagem de suspeitos de crimes sem haver comprovação dos crimes praticados. “Identificamos pelo menos nove tipos de violações recorrentes, como o desrespeito à presunção da inocência, quando o jornalista trata o indivíduo que nem foi julgado como culpado”, explica.

Jornalistas Suzana Varjão e Cláudia Belfort trataram da cobertura de temas de violência e direitos humanos.

Jornalistas Suzana Varjão e Cláudia Belfort trataram da cobertura de temas de violência e direitos humanos.

Como exemplo, houve apresentação de um vídeo em que um jornalista identifica a casa do suspeito de ter estuprado uma menor de idade, além de mostrar os familiares da vítima e expor as imagens em que o crime é registrado. “Há um combate frontal nesses programas aos parâmetros técnicos e éticos da imprensa”, diz.

Suzana deu lugar à jornalista Cláudia Belfort, que trabalhou no Jornal da Tarde e na Gazeta do Povo e é uma das fundadoras da Ponte Jornalismo. Ela afirmou que existe preconceito no tratamento às mortes no Brasil. “A grande imprensa no Brasil ignora a questão de raça. Quando um negro morre no país, não é notícia”.

A jornalista citou o caso da morte de um médico esfaqueado na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, em 2015. No mesmo dia, dois jovens negros também foram assassinados na cidade, porém não houve divulgação ou comoção. “Estamos gerando uma sociedade conformada com a violência”, afirma.

Cláudia mostrou, também, que muitas vezes as mortes são tratadas como números e não vidas. “Na imprensa, quando um jovem negro é indivíduo, é americano. Quando é brasileiro, é número”, provoca, dizendo que a violência contra os negros no Brasil é “invisível”.

Segundo ela, essa narrativa, na qual os brancos são vítimas e os negros, agentes do crime, justifica discursos como o da maioridade penal e o do encarceramento. “A imprensa tem grande responsabilidade na forma como a população brasileira vê os jovens negros”, diz.

Durante as perguntas da plateia, o termo “menor” foi questionado pelas palestrantes. Segundo Suzana, é uma maneira pejorativa de chamar os jovens em conflito com a lei e deve ser evitado na mídia. “Jornalismo não é uma profissão simples. Se não conhecemos um determinado conceito, é melhor não usar”, disse, lembrando que “menor” está carregado de conceitos negativos. “Não dá para usar a desculpa de que no título não cabe ‘adolescente'”, diz.