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Virado para a lua

Redação

13 Setembro 2011 | 12h00

Logo quando cheguei à sede do Grupo Estado, no primeiro dia do curso, percebi que alguns focas estavam curiosos em saber quem era o sortudo que entrara na vaga aberta após a desistência de um dos aprovados. “Olha eu aqui”, respondia, abrindo um sorriso de orelha a orelha. Mal sabiam eles, na verdade, que eu sou um especialista no assunto.

No início de 2006, depois de um ano de cursinho, lá estava eu enfrentando os vestibulares. Depois de fazer a prova da Cásper Líbero e conferir o gabarito, percebi que havia sido prematuramente eliminado, já que tinha errado as cinco questões de matemática no teste de múltipla escolha – o que, automaticamente, elimina o candidato. Após alguns dias saiu a primeira lista dos aprovados na USP e, pra variar, a minha sorte não mudou.

Eu fiquei arrasado, pois todo o esforço do ano anterior parecia ter sido inútil e, naquele momento, não me restava muito além de tentar me conformar e buscar motivação para mais uma temporada de cursinho. Contudo, as coisas começaram a mudar. Na semana seguinte, recebi a notícia de que uma das questões de matemática da prova da Cásper havia sido cancelada e, logo, eu estava novamente na disputa. Eu entrei na lista de espera e fiquei nela por algumas semanas até que me ligaram oferecendo uma vaga recém-aberta. Lembro que, a essa altura, as aulas da faculdade já haviam começado há quase um mês. Na mesma semana foi a vez de meu nome aparecer ao lado dos poucos gatos pingados que entraram na terceira lista da USP, a última de meu curso naquele ano.

Voltemos a 2011. Candidatei-me ao processo seletivo do 22° Curso Estado de Jornalismo por sugestão de um amigo, Murilo Pavini, e pouco depois de fazer a prova recebi com surpresa o e-mail me convocando para a fase final. A partir daí eu percebi que tinha chances reais de ingressar no curso e, com isso, as minhas expectativas foram aumentando cada vez mais. Em excesso, na verdade. Na entrevista final, minhas mãos suavam e meu maxilar tremia, mas eu não estava com calor e tampouco com frio: era nervosismo mesmo. Depois de alguns silêncios constrangedores, deixei o prédio do Estadão com o pressentimento de que não havia passado. Estava certo: no fim da semana de entrevistas o meu nome não constava na lista dos aprovados.

– Não era a sua hora, filho – disse minha mãe, tentando me reconfortar.
– Paciência, no próximo ano você tenta de novo – endossou meu pai.

É claro que, decepcionado comigo mesmo, tais consolos não me surtiam grandes efeitos. Comecei então a procurar os “pontos negativos” do curso: a distância, o trânsito, a mudança de rotina… E assim eu tentava me resignar. Porém, depois de duas semanas eu recebi a seguinte ligação:

– Bom dia, aqui é do Estadão. Houve uma desistência no curso dos focas, você ainda tem interesse em participar?
– Eu? – perguntei, como que desacreditando no que acabara de ouvir. – Claro que sim!
– Tem certeza? O curso começa depois de amanhã…
– Tenho sim, lógico!
– Muito bem, eu lhe enviarei um e-mail explicando o processo.

Desliguei o telefone com o coração acelerado, tomado por uma sensação de euforia e orgulho semelhante àquela que senti quando passei no vestibular. Eu, que costumo agir com discrição, logo estava esmurrando o ar e gritando interjeições – pensei até em dar uma cabriola, mas aí já seria demais. Naquele momento, percebi que havia ganhado uma segunda chance, uma nova oportunidade de aproveitar ao máximo tudo o que o curso tem para me oferecer nesses três meses de aprendizado intensivo. No fim das contas, assim como nas vezes anteriores, a espera não poderia ter sido melhor recompensada.

 Luiz Betti, de 24 anos, é formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e cursa Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP)

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