A história de Zé Colmeia, o urso que sofre de depressão
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A história de Zé Colmeia, o urso que sofre de depressão

Animal criado em circo por uma década passou 5 anos numa pequena jaula. Resgatado, estava subnutrido e tinha baixa estatura

Clarissa Thomé

30 Março 2015 | 18h18

O RioZoo tem um urso que sofre. Não é a solidão, não é a vida em cativeiro. Zé Colmeia tem depressão. O drama do urso-pardo começou ainda na infância. Desde bem pequeno foi obrigado a trabalhar num circo que percorria o interior do Estado, ainda que uma lei estadual proíba animais nos picadeiros desde 2001.

Uma agressão ao seu domador abreviou a vida artística. E a condenação foi severa: Zé Colmeia foi trancafiado numa jaula de transporte de 2 metros quadrados. Passou cinco anos ali, alimentado apenas com ração para cães (das mais baratas).

 

NATAL/ZOOLÓGICO/PRESENTES

De tanto arrastar a cabeça, Zé Colmeia perdeu parte dos pelos. (Fabio Motta/Estadão)

 

Se livre na natureza o ursus arctos, nome científico do urso-pardo, alcança 3 metros de altura quando fica de pé, trancado numa jaula Zé Colmeia atrofiou. Quando se ergue, mal alcança 1,80 metro. Em 2007, uma denúncia anônima ao Ibama levou fiscais do órgão ambiental ao Morro do Coco, bairro pobre em Campos dos Goytacazes, no norte fluminense.

Zé Colmeia foi resgatado e levado para o RioZoo, instituição que completou 70 anos em março, em meio a uma crise que quase provocou seu fechamento. Vive num recinto amplo, com direito a tanque de água e cascatinha. Mas nunca se recuperou. Os anos de fome o transformaram num esganado. Nos primeiros tempos no zoológico, devorava tudo o que via pela frente.

O sintoma maior da depressão e ansiedade são os movimentos repetitivos. Zé passa enormes períodos num ir e vir – caminha alguns passos para trás, outros para frente e esfrega a cabeça na porta da jaula. Faz isso tantas vezes, há tanto tempo, que a tinta preta da porta de ferro desbotou. O pelo no alto da cabeça escasseou.

“Ele quer entrar em casa”, diz uma criança. “Ele tá coçando a cabeça”, arrisca, outra. “Ursoooo”, grita a terceira. Mal sabem elas que as brincadeiras e o falatório o estressam. São o gatilho para o vaivém até a porta. Placas avisam que o animal está em tratamento. Mas nem todas leem o alerta.

 

NATAL/ZOOLÓGICO/PRESENTES

Urso se distrai abrindo ‘presente’ de Natal (Fabio Motta/Estadão)

 

Zé Colmeia é tratado com ansiolítico, para amenizar os sintomas. Os veterinários do zoo criam estratégias para distrair o bicho. Em vez de colocarem a comida no mesmo local, de tempos em tempos a espalham pelo recinto. Zé vai à “caça”. No Natal, ganhou uma caixa de papelão cheia de frutas. As tentativas de retirar o papel de presente e encontrar as surpresas animam o urso. Mas o que ele mais gosta mesmo é do picolé no verão: os tratadores congelam a melancia inteira para Zé Colmeia se refrescar.

Zé já teve uma amiga, Trina, ursa com quem dividiu o recinto. Ela morreu há uns dois anos e ele voltou a morar sozinho. “Ficou triste no início, mas superou”, diz o biólogo Anderson Mendes, do RioZoo. “Zé Colmeia será um paciente psiquiátrico para o resto da vida”. Foi Mendes quem descobriu a origem do ir e vir de Zé Colmeia. “Toda a caminhada que ele fez por cinco anos foi naquela jaula de transporte. Só dava para andar três passos para frente e três para trás”.

No vídeo, é possível ver a curta caminhada de Zé Colmeia.

 

 

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