Alvorada, fogos, feriado, sincretismo: é Dia de São Jorge no Rio
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Alvorada, fogos, feriado, sincretismo: é Dia de São Jorge no Rio

Umbandistas, católicos e candomblecistas lotam igrejas na zona norte e no Centro para cultuar o santo mais popular da cidade

Redação

23 de abril de 2015 | 12h55

Por Danielle Villela

Em meio ao empurra-empurra de fiéis que se aproximavam do altar da Igreja São Gonçalo Garcia e São Jorge, no Centro do Rio, Manuela Imbroisi repetia na manhã desta quinta-feira o hábito de todos os anos no dia 23 de abril. “Salve São Jorge”, dizia baixinho ao entregar cada um dos 2 mil santinhos que costuma distribuir na data em devoção ao Santo Guerreiro. Assim como ela, milhares de fiéis celebram o dia do santo desde a madrugada desta quinta-feira, 23, no Rio, nos templos que o têm como padroeiro na capital fluminense.

“Venho todos os anos agradecer tudo que alcanço, mas esse ano é mais especial porque me caso no sábado”, afirmou Manuela. Coincidência ou destino, Jorge é o nome do futuro sogro da devota, e o casal se conheceu na Vila de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás.

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Devotos lotaram a Igreja São Gonçalo Garcia e São Jorge, no Centro (Foto: Fabio Motta/Estadão)

Os festejos em homenagem ao Santo Guerreiro começaram às 5h, com missas de alvorada e queima de fogos na Paróquia São Jorge, em Quintino, na zona norte, e na Igreja São Gonçalo Garcia e São Jorge, na Praça da República, no Centro. Durante a manhã, a fila de devotos no local se estendia por cerca de 400 metros da porta da igreja. Muitos fiéis vestiam vermelho, cor símbolo de São Jorge, e traziam fitinhas, medalhas e até imagens do santo.

A programação religiosa incluía missas a serem celebradas a cada hora nas duas igrejas, das 7h às 15h e das 16h30 às 18h, em Quintino, e das 8h às 16h, no Centro. Depois de presidir a celebração das 10h, em Quintino, o cardeal-arcebispo do Rio, Cardeal Dom Orani João Tempesta, celebraria a missa de encerramento às 20h, no templo na Praça da República.

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Fiéis oram durante uma das celebrações pelo Dia de São Jorge (Foto: Fabio Motta/Estadão)

No Centro, as homenagens incluem a encenação do “Auto de São Jorge”, às 18h, com um elenco de 14 artistas, alunos e ex-alunos da Oficina de Atores da Cesgranrio. A montagem tem como tema momentos históricos da vida do santo.

O vendedor ambulante Gilberto Cosme Teodoro da Silva aproveitava o movimento na Praça da República para vender gorrinhos. “Venho há 30 anos e tem um pessoal que gosta de levar um souvenir. Agradeço a São Jorge, se não fosse por ele eu não estava aqui para ganhar esse dinheirinho”, disse.

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Muitos fiéis vestiam vermelho, cor de São Jorge, nas celebrações (Foto: Fabio Motta/Estadão)

A devota Maria de Lourdes Ribeiro disse que fora agradecer uma graça. “A fé remove montanhas. Sou católica e fiz uma promessa para minha saúde, pois estava com princípio de trombose. Vim agradecer a graça que alcancei”, disse. Ela contou que não perde uma festa de São Jorge na Praça da República desde que se mudou de Recife (PE) para o Rio, há 70 anos. Neste ano, para agradecer a cura, Maria de Lourdes confeccionou e distribuiu 23 saquinhos vermelhos. Em cada um, colocou uma moeda de R$ 1 e uma oração ao santo.

Além das homenagens dos católicos, o Dia de São Jorge é celebrado também por devotos das religiões de matriz africana, como umbanda e candomblé. Junto à igreja na Praça da República, o babalorixá Alex de Logun Edé usava folhas de aroeira, sementes de arroz e água de cheiro para “passar axé” aos devotos.

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Multidão de devotos lotou rua próxima à igreja (Foto: Fabio Motta/Estadão)

“Venho todos os anos trazer axé e alegria para o povo carioca. As pessoas vêm buscar proteção e solução para os seus problemas”, disse Alex, que há 25 anos abriu um terreiro no Rio, depois de deixar Salvador.

O babalorixá explicou que, pelo sincretismo religioso, no Rio de Janeiro São Jorge é relacionado a Ogum, orixá dos metais e da guerra, mas na Bahia é ligado a Oxossi, orixá da caça e das florestas. “São dois orixás irmãos, um cresceu na guerra, o outro cresceu na mata, e cada um tem sua força e sua energia”, explicou.

Padroeiro também de muitas escolas de samba do Rio, São Jorge virou tema de uma ampla programação pagã, com shows, rodas de samba e feijoadas nas quadras da Portela, União da Ilha, Unidos da Viradouro, Império da Tijuca e Estácio de Sá. O Bloco Cordão da Bola Preta, um dos mais tradicionais do Carnaval de rua do Rio, também considera São Jorge como padroeiro. Organizou um evento com feijoada em sua sede, no Centro.

História – Transformado em feriado municipal desde 2001 e estadual desde 2008 no Rio, o dia 23 de abril é aceito como data da  morte de São Jorge. A tradição diz que o santo foi soldado do exército romano na Capadócia, região da atual Turquia, e teria se sensibilizado com o martírio dos cristãos. Por ter assumido a sua fé em Jesus Cristo, o militar foi perseguido e decapitado no ano 303.

São Jorge é considerado o padroeiro de vários países, como Inglaterra e Portugal, além de cidades como Moscou (Rússia) e Barcelona (Espanha). No Brasil, também é considerado padroeiro do Exército, da Polícia Militar e dos Corpo de  Bombeiros.

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