Após promessa da PM em maio, UPP segue em escola no Alemão
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Após promessa da PM em maio, UPP segue em escola no Alemão

Em nota, Coordenadoria de Polícia Pacificadora diz que retirada da base da corporação no terreno do colégio 'não tem prazo'

Carina Bacelar

27 Agosto 2015 | 08h30

Em maio deste ano, após a pressão de moradores, alunos, professores e deputados estaduais, a Polícia Militar do Rio prometeu: tiraria uma base da Unidade de Polícia Pacificadora de Nova Brasília, no Complexo do Alemão, do terreno do Centro de Atenção Integral à Criança (Caic) Theóphilo Souza Pinto. No local, alunos uniformizados e policiais armados dividiam espaço com PMs, que segundo relatos, se abrigavam atrás dos muros da escola durante confrontos com traficantes. Quase quatro meses depois do compromisso da corporação, entretanto, a base continua no mesmo local.Sua fachada está cravejada de marcas de projéteis.

De acordo com a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), não há prazo para a retirada da base. “A Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Nova Brasília aguarda a conclusão das obras da futura base para realizar a mudança. No entanto, não temos um prazo”, disse, em nota, a CPP.

Marcas de balas chamam a atenção de quem olha para letreiro com o nome da escola (Carina Bacelar/O Estado de S. Paulo)

Marcas de balas chamam a atenção de quem olha para letreiro com o nome da escola (Carina Bacelar/O Estado de S. Paulo)

Pela mudança de local da base, ativistas e moradores do Complexo do Alemão já criaram até uma petição online, na plataforma Panela de Pressão. Por meio dela, cada um dos 350 signatário (até às 17h da quarta-feira, 26) envia um e-mail para o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, e para o coronel Luiz Cláudio Laviano, comandante das UPPs.  “Por sorte, até agora, as marcas de balas estão apenas nas paredes da escola. Até quando o Estado vai deixar as crianças, professores e funcionários sujeitos a essa tragédia anunciada?”, afirma o texto da petição.

No Alemão, os tiroteios constantes, quase diários, preocupam moradores. No último sábado, fizeram uma passeata nos acessos às comunidades pedindo paz. Um levantamento feito pelo Estado entre 13 de julho e 13 de agosto deste ano apontou que houve, neste período, em média três dias de confronto por semana. Foram ao todo 13 em 32 dias, que fizeram do Alemão o território com mais tiroteios no mês, seguido pelo Complexo da Penha, com 11 registros.

“A população da favela está adoecida com a violência”, desabafa Lúcia Cabral, fundadora e coordenadora da ONG Educap, que oferece aulas e atividades de lazer e cultura a crianças e jovens do Complexo do Alemão.

Lúcia conta que os pais têm ficado mais preocupados em deixar os filhos saírem de casa para comparecer a aulas de reforço escolar, informática e esportes no projeto social. Nas atividades no campo de futebol da ONG, muitas vezes as crianças têm que ser retiradas às pressas em meio a disparos.

“Os conflitos que acontecem não têm dia, não têm hora, mas está tendo uma mobilização para dar um basta nisso”, diz a coordenadora do Educap.

Perto da sala do grêmio estudantil, uma janela foi quebrada por tiro (Carina Bacelar/O Estado de S. Paulo)

Perto da sala do grêmio estudantil, uma janela foi quebrada por tiro (Carina Bacelar/O Estado de S. Paulo)

Evasão. Já no Caic Theóphilo Souza Pinto, por causa dos tiroteios, a diretora Tânia Salazar afirmou às comissões de Educação e Direitos Humanos da Alerj, em visita de ambas ao colégio em abril deste ano, que a escola estadual perdeu metade dos alunos. “Em 2009, eu tinha apenas 300. Cheguei a ter 1.300 em 2011. Hoje são quase 700”, contou, na ocasião. Em 2014, a escola perdeu as turmas de ensino fundamental, mas a evasão é atribuída aos conflitos, já que a grande maioria dos estudantes do Theóphilo Souza Pinto cursa o ensino médio.

A própria sala da diretora tem uma das paredes esburacada por vários tiros, o que ela procura esconder com borboletas de plástico e flores. A maioria dos alunos, afirmou a direção, mora em áreas de conflito no Alemão.

“A gente serve de escudo”, disse um estudante do 3º ano do ensino médio, que pediu para não ser identificado, logo após a reunião com os deputados. “Os envolvidos com o tráfico não vão atirar para cá porque eles têm parentes que estudam aqui. Os policiais fazem muitas ações às 18h, que é horário de saída da escola”, disse o aluno, de 21 anos.