Às vezes, dar um abraço no Maracanã pode render punição
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Às vezes, dar um abraço no Maracanã pode render punição

Juiz que não advertiu jogador do Fluminense por comemorar junto à arquibancada foi suspenso pela CBF

Marcio Dolzan

01 Setembro 2015 | 17h30

A gente vive malhando os campeonatos estaduais. Eles são deficitários, eles são disputados por muitos times ruins, eles enganam dirigentes dos grandes clubes que pensam que o título é a prova de que o seu time está bem – e aí vem o Brasileirão para mostrar que não, não estava bem. Em suma, na maioria dos casos a gente tem razão em criticar os estaduais. Mas num aspecto eles estão muito à frente do nosso nacional: no torneio da aldeia, jogador de futebol ainda pode comemorar o gol em paz com seu torcedor. No Brasileiro, não.

No fim de abril, este blog enalteceu a escadinha do Maracanã que servia para os artilheiros irem vibrar nos braços da galera. Eram as cenas mais legais das partidas. Podíamos até questionar a qualidade do futebol que se jogava dentro das quatro linhas, mas quando o gol saía, ah, daí ficava bonito. O povão – aquele que ainda consegue pagar o que cobram pelo ingresso – vibrava, e o autor do gol ia lá vibrar com ele. Ganhava abraços, dava os seus. Nunca ninguém saiu reclamando de um peteleco ou arranhão.

Aí começou o Brasileirão e isso foi proibido por determinação da CBF. Numa circular da entidade distribuída aos árbitros, consta o seguinte: “Nos estádios que tenham escadas de segurança, os atletas devem ser orientados por seus clubes para não subir nelas para comemorar gols, pois isso caracteriza conduta antidesportiva”.

Sim, você leu certo.

Tudo bem, se comemorar gol subindo uma escada é uma conduta antidesportiva, não se comemora mais. Talvez até fosse ideal que nem se marcassem mais gols, para os boleiros não caírem em tentação. Enfim.

Pois domingo passado aconteceu o seguinte: o Wellington Paulista, do Fluminense, marcou o gol que empatava o jogo com o Atlético-MG, no Maracanã, e saiu desembestado a comemorar. Como daquele lado do estádio estava posicionada a torcida mineira, ele olhou em volta para ver se encontrava algum rosto conhecido para extravasar sua alegria. E viu em um ponto o vice de futebol do Flu, Mario Bittencourt:

“O Wellington fez o gol e nitidamente saiu procurando alguém para comemorar, porque ali não tinha torcida – e a prova é que você pode ver que eu estou aí sozinho. Quando ele me avista em pé, comemorando o gol, ele começa a gritar ‘desce, desce’, para me dar um abraço”, recordou Bittencourt. “Aquele local aí não é uma arquibancada; é um local à esquerda da tribuna da diretoria. Só tinha diretoria e comissão técnica aí, todo mundo de crachá.”

Como aquele local “não é uma arquibancada” – tecnicamente é, mas na ocasião não estava sendo –, o árbitro Marielson Alves Silva teve o bom senso de deixar passar. Não puniu o Wellington Silva com o cartão amarelo. “Um abraço não é uma atitude antidesportiva”, deve ter pensado o Marielson. Eu pensaria assim, ao menos.

Mas a CBF pensou diferente. E decidiu punir o árbitro – elogiado pelo próprio Fluminense, que perdeu o jogo em casa – com um tempo na geladeira por não ter dado o amarelo. Ele não será escalado na próxima rodada. E nem importou o fato de o Marielson ter tido uma boa atuação e ser um dos poucos árbitros a não ser criticado pela sua atuação em campo.

A única conclusão que dá para se tirar disso é: que sorte tiveram os jogadores alemães, que comemoraram cada um dos sete gols apenas entre eles. Já pensou se algum acabasse punido e ficasse de fora da final?

CBF puniu o árbitro do jogo por causa desta imagem. (Foto: Bruno Haddad/Fluminense)

Cenas fortes: CBF puniu o árbitro do jogo por causa desta imagem. (Foto: Bruno Haddad/Fluminense)