Barbara Heliodora, de plateia a protagonista
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Barbara Heliodora, de plateia a protagonista

Convencida por estudantes de cinema, crítica de teatro foi tema de premiado documentário lançado em 2012.

Carina Bacelar

11 de abril de 2015 | 13h08

Em abril de 2011, a hoje cineasta e jornalista Ellen Ferreira, de 26 anos, se preparava para “falar bonito” ao telefone. Do outro lado da linha, estaria a mais respeitada e temida crítica de teatro do país, Barbara Heliodora. Ellen, então estudante de cinema da PUC-Rio, já havia passado noite em claro pesquisando sobre a vida de Bárbara desde que teve a ideia de realizar um documentário em curta-metragem sobre a crítica, então colunista do jornal O Globo.

A ligação foi atendida por uma voz grave, que deu a Ellen inesperada resposta amável: um convite para que a estudante fosse à sua casa. “É uma branca com janelas azuis”, disse Barbara, que morava no Largo do Boticário, região histórica da zona sul. “Melhor à tarde”, completou.

O curta Barbara em cena (lançado em 2012, vencedor dos prêmios Ver Cine 2013 e U.Frame 2012) seria apresentado como projeto final de uma disciplina do curso de cinema da PUC-Rio. No grupo de cinco estudantes, acrescido durante as filmagens por alguns colaboradores, as idades variavam entre os 21 e 22 anos. Mais que seis décadas de diferença em relação a Barbara, com seus então 88 anos.

Barbara abriu as portas de sua casa para jovens estudantes de cinema em 2011 (Barbara em cena/Divulgação)

Barbara abriu as portas de casa para estudantes de cinema em 2011 (Divulgação)

“Na época, eu estava com 21 anos. Era uma criança perto dela”, lembra Ellen. “Eu abordei a Barbara na fé de que seria uma boa história para contar. Ela, que estuda tanto os outros, nunca tinha sido protagonista, sempre ficou na plateia. Talvez ela tenha tido confiança na boa intenção do filme, de que a nossa proposta era honesta, sincera”.

Não foi tão simples. Ellen precisou de cinco idas à casa de Barbara para convencê-la a estar na frente das câmeras. Na primeira delas, sozinha, se lembra de ter ouvido primeiro os latidos dos dois cachorros de estimação da crítica. “Eu olhei aquela casa branca com janelas azuis e voltei no tempo”, relata. Dentro dela, encontrou uma “senhora de óculos grandes e cabelinho branquinho, mas alta e de voz grave”. As duas tomaram café com queijos. “Eu sabia que era uma mulher com um tempo disputado, então fui breve. Deixei meus contatos”.

A timidez de Bárbara teve de ser vencida aos poucos. Ellen propôs filmar a chegada dela a uma peça de teatro, onde faria mais uma de suas afiadas críticas. “Ai  meu Deus, vai ficar todo mundo me olhando” , relutou a documentada. “Esse processo de convencimento teve esse tempo, porque ela é muito discreta, muito reservada”, explica Ellen.

Mas Barbara gostava de conversar – mais ainda de ensinar. O grupo documentou algumas aulas que a crítica teatral ministrava em sua casa, sobre textos de Shakespeare – ela era profunda conhecedora da obra do autor. Nessas ocasiões, falava com “fervor de adolescente”. “Com 88 anos, a gente via uma menina de 12 falar. Ela fazia com muito amor o trabalho dela”, diz a cineasta.

Não é à toa que a senhora octogenária assumiu um tom professoral com os estudantes de cinema. “Ela explicava para a gente com a paciência  de saber que a gente não sabia, e tinha o prazer de ensinar. Quando eu vi, estava lá no chão sentada ouvindo as histórias dela”. Ao longo dos quase seis meses de gravação do documentário,  no segundo semestre de 2011, a equipe frequentemente encontrava Barbara lendo ou digitando, mesmo depois de uma das ocasionais internações por pneumonia. “Com certeza ela deixou algum livro escrito pela metade. O combustível dela era o trabalho”, recorda Ellen.

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