Chico Buarque vira figurinha fácil na noite da Lapa carioca
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Chico Buarque vira figurinha fácil na noite da Lapa carioca

Três meses meses depois da canja no Bar Semente, ele volta ao palco, em noite que teve também aparição de Madeleine Peyroux

Roberta Pennafort

20 Maio 2015 | 12h45

 

De presença inesperada, Chico Buarque já pode ser considerado frequentador do Bar Semente, na Lapa carioca. Em fevereiro, fez uma aparição-sensação num show instrumental, subindo ao palco para cantar três músicas; ontem, a canja foi dividida com a (então) atração da noite, o cantor Moyseis Marques, um dos expoentes da geração de artistas que fizeram nome nas casas do bairro.

O público ainda foi surpreendido pela chegada da cantora norte-americana Madeleine Peyroux, que saiu de seu show no Teatro Municipal, perto dali, para conhecer a tradição da região boêmia do Rio. Acompanhada de seu baixista e seu guitarrista, Madeleine cantou jazz e Água de beber (Tom Jobim/Vinicius de Moraes), que incorporou ao repertório apresentado em sua passagem pelo Brasil. Tanto ela quanto Chico se deixaram filmar e posaram para fotos, sorridentes e à vontade.

 

 

O compositor chegou por volta das 21h30, com as filhas Helena e Luísa e amigos, para ver Moyseis cantar. Conhece bem seu trabalho: ele é protagonista da Ópera do Malandro, seu musical de 1978, atualmente em cartaz em montagem do diretor João Falcão. A performance de Chico no Semente começou depois que Moyseis cantou Dura na queda, do repertório mais recente do compositor.

Encerrando seu set, Moyseis agradeceu a presença e brincou: “A gente tem que fingir naturalidade porque o autor está aqui…” Foi a senha para Chico entrar em cena e provocar: “Vocês estão achando que minha canja é de graça? Eu quero ver você e o Alfredo cantando Doze anos!”, convocou, referindo-se a uma das canções da Ópera.

O Alfredo chamado por Chico é Alfredo Del-Penho, cantor que, no musical, faz Tigrão, o delegado corrupto. Companheiro de Lapa, ele estava na plateia para assistir a Moyseis e se emocionou com a menção de Chico. “É um abraço na gente. Mostra que ele está atento ao que está acontecendo. Foi a maneira dele de dar um aval”, contou, há pouco, ainda impactado.

Del-Penho já tinha conhecido a generosidade de Chico. Ele participou do financiamento coletivo de seu primeiro trabalho solo, que será lançado em breve em dois CDs. E, antes ainda, foi acolhido pelo ídolo nos bastidores da Ópera: Chico foi conferir a nova versão no ano passado e, após os aplausos, cumprimentou ator por ator nos bastidores, fazendo comentários sobre cada personagem.

No Semente – que experimentou um aumento de público desde que correu a notícia da canja de fevereiro –, Chico demonstrou também desprendimento. Moyseis lhe entregou o violão e eles dividiram Aquela mulher, mesma escolha da canja de fevereiro, o jovem, embevecido, o mestre, puro despojamento.

O violão vazado, sem corpo, ao qual não está acostumado, o atrapalhou (“esses violões abstratos…”, brincou), e Chico pediu desculpas algumas vezes por errar a própria música. Emendou com o samba Injuriado. Em seguida, recrutou Alfredo e se esquivou de seguir no palco: “Agora eu quero só ouvir”.