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Corte em linhas de ônibus é criticado por moradores do subúrbio

Das 48 linhas, entre encurtadas e extintas, 18 iam da zona norte até as praias da zona sul, o que gerou protestos na internet

Carina Bacelar

18 Setembro 2015 | 12h32

A mudança nos trajetos de ônibus no a partir de outubro – divulgada pela prefeitura como uma racionalização das linhas para evitar o acúmulo de ônibus vazios nas ruas – tem sido encarada com desconfiança por moradores da zona norte carioca. A alegação é de que os itinerários entre os subúrbios e a zona sul foram modificados para dificultar o acesso dos jovens pobres à orla de Copacabana, Ipanema e Leblon. Das 48 linhas, entre encurtadas e extintas, 18 faziam o trajeto até as praias.

Das 18 linhas, seis terminaram e 12 passarão a ter ponto final em Botafogo, Glória (bairros na zona sul mais afastados do trecho nobre da costa) e, principalmente, centro. É o caso do ônibus 474, que a favela do Jacaré, na zona norte, ao canal Jardim de Alah, que separa Ipanema e Leblon). É justamente do Jacaré o grupo de 150 jovens que, em agosto, foi impedido pela Polícia Militar (PM) de chegar à Copacabana, mesmo sem terem cometido delitos. A ação foi feita, segundo a polícia, porque os adolescentes estavam em “situação de risco”, sem dinheiro e sem responsáveis.

Mudança na circulação de ônibus gerou petição na internet (MARCOS DE PAULA/ESTADÃO)

Mudança na circulação de ônibus gerou petição na internet (MARCOS DE PAULA/ESTADÃO)

De acordo com a Secretaria Municipal de Transportes, que deve detalhar na semana que vem a logística da retirada e modificação dos trajetos, um estudo constatou que 64% das linhas se sobrepõem. A modificação, que só termina em março de 2016, pretende tirar 35% da frota das ruas, na tentativa de reduzir os engarrafamentos e o tempo gasto nos percursos.

“O sistema de racionalização se deu a partir da constatação de que muitas linhas faziam trajetos semelhantes e circulavam com os ônibus muito abaixo da capacidade, prejudicando o trânsito e deixando o sistema desorganizado. Diante disso, a redução de linhas se tornou necessária”, informou a secretaria em nota. De acordo com a nota, as mudanças não impedirão os deslocamentos entre as regiões mais pobres e mais ricas do Rio.

Os moradores que quiserem ir direto para a zona sul poderão pegar linhas que trafegam pelos túneis Rebouças e Santa Bárbara. “Estas estão mantidas”, divulgou a secretaria. É o caso da 438, que seguirá transportando moradores de Vila Isabel e Catumbi (zona norte) até o Leblon.

Nem todos concordam com esses argumentos. “Interpretei como uma medida racista e segregacionista com os moradores da zona norte. Ainda mais nesse contexto que a gente teve recentemente de blitzes nos ônibus. A atual gestão (da prefeitura) está interessada em fortalecer mais o que a gente chama de cidade partida”, declarou o bacharel em Relações Internacionais Breno Coimbra, de 23 anos, que criou petição da internet, na plataforma Avaaz, pela manutenção dos ônibus. O movimento já havia reunido 3.536 assinaturas até 17h de ontem.

Morador da Abolição (zona sul), Coimbra costuma pegar a linha 457 (Abolição-General Osório, em Ipanema) nos fins de semana. A condução vai parar em Botafogo em outubro. “Eu pensaria duas vezes antes de ir, de ter que fazer baldeação. Para o pessoal que vai ter que pegar ônibus no centro, pior ainda.”
No Facebook, internautas até marcaram um protesto, que será na Candelária (centro), no próximo dia 1º. A página do evento “Não vai ter extinção de busão” tinha 2.679 participantes até 17h de ontem.
Para José Eugênio Leal, professor de Engenharia da PUC-Rio especialista em logística de transportes, a mudança “faz sentido”, mas deve ser acompanhada pela possibilidade de mais que as duas baldeações previstas atualmente no Bilhete Único Municipal.

“Realmente observa-se um excesso de ônibus na zona sul. Em diversos, locais reduzir o número de ônibus é uma medida correta, mas isso deve ser acompanhado de um bilhete único que tenha mais possibilidade de transbordo”, disse ele.