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Crise da água: governos ignoram alerta, dizem cientistas

Reunidos na Academia Brasileira de Ciências, especialistas criticam falta de transparência na gestão e apontam risco de “agravamento da instabilidade social”; crise era previsível há mais de um ano

Felipe Werneck

12 de fevereiro de 2015 | 16h31

Três meses após a Academia Brasileira de Ciências ter apresentado uma carta aos governos federal, de São Paulo, do Rio e de Minas Gerais com um diagnóstico e possíveis ações para enfrentar a crise hídrica, a situação piorou e os cientistas ainda não foram procurados por autoridades. O documento defende mudanças na gestão e aponta problemas como falta de transparência, além do risco de “agravamento da instabilidade social”.

“Falta fazer o que (Winston) Churchill (1874-1965, ex-primeiro-ministro do Reino Unido) fez na 2.ª Guerra Mundial, ou seja, informar brutalmente à população que a crise é muito séria’, afirmou José Galizia Tundisi, presidente do Instituto Internacional de Ecologia, que coordena há 5 anos na Academia o grupo de estudos sobre recursos hídricos. Segundo ele, a chamada Carta de São Paulo, produzida por 16 cientistas, foi entregue em novembro. “Não recebemos por enquanto nenhuma resposta. Acho que deveríamos ser ouvidos. Falta água para o abastecimento, para produção de alimentos e para energia. Gostaríamos de expressar a nossa preocupação e, mais do que isso, apresentar o nosso conhecimento, propor soluções”, disse Tundisi.

A bióloga Sandra Azevedo, diretora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz acreditar que existe uma “barreira praticamente intransponível ” que impede a transferência do conhecimento científico. “O gerenciamento de riscos está represado por vontade política. Ainda existe no País a questão do imediatismo, de fingir que nada está acontecendo. O que houve nas eleições (de 2014) foi varrer para baixo do tapete uma crise que estava na cara”, afirmou Sandra, referindo-se a previsões do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Segundo ela, estava nítido desde o início do ano passado que não ia ter água para manter os reservatórios. “Faltou transparência e continua faltando. A população não tem a real dimensão da crise e nem está sendo preparada para enfrentá-la. Isso no mínimo é irresponsável”, afirmou. “Já que a academia não está conseguindo ser ouvida da forma que gostaria pelos tomadores de decisão, vamos buscar um canal direto com a população, embora isso não seja muito comum. A informação precisa chegar.” Para a bióloga, todos os cenários indicam que a crise tende a se agravar. “Precisamos mostrar que há condição técnica para resolver. Não aceito que se fale em limitação econômica. O desperdício que temos hoje já seria mais do que suficiente para resolver problemas.”

Paulo Canedo, que chefia o Laboratório de Hidrologia da Coppe/UFRJ, sugere a criação de metas semestrais para redução das perdas de água tratada no sistema da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), que hoje chegam a 32%. Na Alemanha, esse índice é de 10%. Reunidos na tarde desta quinta-feira, 12, na sede da Academia, os cientistas defenderam mudanças no modelo de cobrança, com sobretaxa para alto consumo e desconto para quem economizar água, medida já descartada pelo governador Luiz Fernando Pezão (PMDB). “O cenário para 2015-2016 é catastrófico. Em novembro de 2013 já era possível antever isso sem nenhuma bola de cristal. Sugerimos racionalização do uso e aumento tarifário, mas nada foi feito”, disse Canedo.

Tundisi alertou para o risco de “convulsão social” caso haja uma conexão entre problemas econômicos e climatológicos com falta de abastecimento. “Já tivemos exemplos de cidades brasileiras em que a população perdeu a paciência e botou fogo na Câmara. A crise é muito mais ampla. Precisamos de uma mudança drástica na governança da água”, disse o cientista. O tratamento de esgoto precário no País foi um dos pontos centrais do debate. “Mandei cartas para os últimos três presidentes da República sobre a questão do esgoto em nome da Academia, e a resposta não veio”, acrescentou Tundisi.

Luiz Pinguelli Rosa, diretor do Programa de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ, diz que o racionamento de energia já deveria ter sido adotado há três anos. “Não há alerta na população. Teremos problemas.” No caso da água, os especialistas defendem que haja mudança de hábitos e redução do consumo, mas evitam falar em racionamento. “Sou totalmente contra o sistema de rodízio. Não existe nada que exponha mais a população a riscos de saúde do que a intermitência. Com a redução da pressão no sistema, ocorrem infiltrações, aumentando a contaminação. O rodízio também é injusto socialmente, porque quem está na ponta nunca vai ter água. Qual é a logística para não deixar de fora um hospital que está no meio da linha?”, questiona Sandra. Segundo ela, o importante é instruir a população. “Não há dúvida de que podemos ter problemas sociais sérios.”

Pesquisador do Cemaden, José Marengo avalia que 2015 será um ano difícil. “Se chover 50% acima do normal no Cantareira, sairíamos do volume morto e continuaríamos por alguns meses, mas como já teremos chegado à estação seca, entraríamos de novo no volume morto.”

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