Crise deixa alunos com necessidades especiais sem acompanhamento
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Crise deixa alunos com necessidades especiais sem acompanhamento

Mesmo com reserva de vagas para estes casos, CAp da Uerj tem apenas um professor especializado concursado

Roberta Pennafort

06 Março 2015 | 18h55

Apreensão: a enfermeira Geovana teme que o filho Arthur Cesar, autista, regrida (Foto: Marcos de Paula/Estadão)

Apreensão: a enfermeira Geovana teme que o filho Arthur Cesar, autista, regrida (Foto: Marcos de Paula/Estadão)

 

Além de atrasar o início do ano letivo, a crise financeira no Colégio de Aplicação (CAp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) ameaça o acompanhamento dos alunos com necessidades especiais, que é referência no Estado. O número de estudantes que demandam essa atenção é crescente, pelo fato de desde 2013 haver reserva de 5% das vagas para eles no processo de admissão.

Instituição gratuita de excelência que abarca os ensinos fundamental e médio, única escola pública estadual a integrar a lista das cem mais bem colocadas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2013 no País (em 99º lugar), o CAp dispõe no momento de apenas uma profissional especializada. São 25 as crianças com necessidades especiais – casos de paralisia cerebral, autismo, déficit de atenção, hiperatividade, dislexia, bipolaridade e com dificuldades motoras.

Até 2014, eram cinco professores, um concursado e quatro contratados. A professora Patricia Braun, coordenadora das ações de inclusão do colégio, contou que para este ano está sozinha na função, pois a universidade foi impedida pela Justiça de contratar professores substitutos. Quando os concursados recém-aprovados forem efetivados, o número deve chegar a três, mas ainda será insuficiente, lamenta a professora.

“Os concursos não cobrem todas as necessidades do colégio. As crianças precisam de mediação constante, dentro e fora da sala de aula. Sem isso, não há inclusão escolar de verdade. A gente não tem que cuidar, tem que educar.” Ela lembra que o trabalho no CAp vai além das orientações do Ministério da Educação, segundo as quais a atenção especial aos alunos deve ser dada no contraturno (ou seja, de manhã, para quem estuda de tarde, e vice-versa). “Esses alunos têm um processo de aprendizagem diferente e a mediação se dá o tempo todo, para a organização da rotina, o acompanhamento das interações sociais, o estímulo aos cuidados pessoais, o desenvolvimento da autonomia.”

A enfermeira Geovana Nogueira, de 44 anos, está apreensiva. Autista, o filho Arthur Cesar, de 9 anos, cursa o quarto ano fundamental. “A qualidade do ensino colaborativo que o CAp tem a gente não encontra nas melhores e mais caras escolas particulares. Tinha a certeza de meu filho estar acolhido, apesar das dificuldades de socialização do autista. Ele evoluiu, desenvolveu a fala, elaborou discurso próprio. Estou muito angustiada. Temo que regrida.”

O CAp tem cerca de 1.100 alunos. Não só os professores com formação voltada às necessidades especiais estão em falta. O déficit atinge matérias como língua portuguesa, geografia e música – no total, 27 professores de 40 horas de dedicação. A direção espera a convocação dos aprovados no último concurso da Uerj.

As aulas deveriam ter começado na segunda-feira passada. Agora estão previstas para dia 16. Também faltam empregados de limpeza, segurança e manutenção, com salários atrasados desde o ano passado. Professores contam que já chegaram a limpar, eles mesmos, filtros de ar condicionado, carteiras e pisos. Uma professora rifou chocolates para pagar a instalação de tela em janelas, para evitar acidentes com alunos. Hoje, pais e professores se reúnem para discutir a crise.

“Nosso currículo é bastante variado e isso faz um diferencial tremendo. Nosso foco não é aprovar no vestibular, mas os resultados acabam sendo consequência. Não dá para manter as crianças aqui em situação de risco”, disse o diretor, Lincoln Tavares Silva. A reitoria da Uerj foi procurada pela reportagem, mas não comentou a situação.