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UPPs em crise: 208 PMs deixam Morro São João para ‘novo treinamento’

Iniciativa é a primeira de Secretaria de Segurança após anúncio de mudanças; agentes do COE assumem policiamento na favela

Redação

02 Março 2015 | 21h07

Todos os 208 policiais que atuam na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Morro São João, no Engenho Novo, zona norte do Rio, foram retirados do local e serão submetidos a novo treinamento, na primeira ação da Secretaria de Segurança após o anúncio de mudanças no programa das UPPs, iniciado há oito anos. Os policiais foram substituídos na manhã desta segunda-feira, 2, por PMs do Comando de Operações Especiais (COE), que inclui o Batalhão de Choque.

À tarde, ocorreu no Palácio Guanabara a primeira reunião da Comissão Executiva de Monitoramento e Avaliação da Política de Pacificação (Cemapp), criada por decreto no início de fevereiro pelo governador Luiz Fernando Pezão (PMDB). Um dos objetivos da comissão, coordenada por Pezão, é reformular ações sociais em favelas com UPPs, após o fracasso do programa UPP Social e de mais uma crise na segurança pública.

“É inegável que a gente teve problemas com as UPPs. Queremos retomar esse processo, mais forte, de ver como o Estado, a prefeitura e o governo federal podem se somar para entrar nessas comunidade com serviços, e tirar das costas da PM uma série de coisas que não têm nada a ver com segurança pública”, disse o governador após a reunião. O próximo encontro está previsto para o dia 17. “Vou me reunir de 15 em 15 dias com todas as secretarias”, disse Pezão.

O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, anunciou que o Morro dos Macacos, em Vila Isabel, na zona norte, será a segunda UPP a ter uma “reciclagem” dos policiais. “Melhorar é obrigação nossa. Temos que estar sempre procurando evoluir e nos adaptar. Começamos pelo São João e deveremos ir na semana que vem para o Macacos, e assim sucessivamente”, disse Beltrame.

A UPP São João foi criada em janeiro de 2011 e o Morro dos Macacos recebeu uma UPP em novembro de 2010. De acordo com a Polícia Militar, operação do COE realizada no  São João nesta segunda-feira, 2, resultou na apreensão de uma pistola, um carregador, 262 trouxinhas de maconha, 201 papelotes de cocaína, 187 pedras de crack, dois rádios transmissores e dois telefones celulares. Dois suspeitos foram detidos. 

Perguntado sobre a operação policial que resultou na morte do adolescente Alan de Souza Lima, de 15 anos, que filmava com um celular uma conversa entre amigos na favela Palmeirinha, em Honório Gurgel, na zona norte, em 20 de fevereiro, quando foi baleado, Beltrame disse que “numa instituição com 50 mil homens, é muito difícil garantir que isso nunca mais vá acontecer”. “O que a gente tem de fazer é mudar o currículo (da PM), preparar, capacitar”, acrescentou o secretário. 

Após a operação na Palmeirinha, que deixou outros dois jovens baleados, os policiais apresentaram na delegacia uma pistola e um revólver para incriminá-los e justificar o “auto de resistência”, afirmando que revidavam um ataque. Com a divulgação das imagens gravadas no celular do jovem morto, que desmentem a versão policial, a delegada Adriana Belém iniciou uma investigação contra os PMs sob acusação de homicídio, tentativa de homicídio e fraude processual. Nove policiais que participaram da operação foram afastados, e o comandante do 9.º BPM, exonerado.

Desde o início do projeto das UPPs, em dezembro de 2008, o número oficial de mortes em alegados confrontos com policiais no Estado aumentou pela primeira vez em 2014. Foram 582 “homicídios decorrentes de intervenção policial” no ano passado, alta de 40% em relação a 2013. Os homicídios dolosos (intencionais) aumentaram 4% e os roubos de rua cresceram 33% no ano passado.