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Daciolo apresenta PEC religiosa à Constituição e será expulso do PSOL

Depois de prometer que não faria emenda dizendo que 'todo poder emana de Deus', deputado surpreende partido com proposição

Wilson Tosta

26 Março 2015 | 14h20

O deputado federal Cabo Daciolo (PSOL-RJ) cumpriu a promessa inscrita no bordão que repete em seus discursos, baseado no Hino dos Bombeiros, corporação à qual pertence: “Nenhum passo daremos atrás”. Evangélico sem filiação a igreja e há menos de dois meses no Legislativo, ele apresentou à Câmara dos Deputados, como prometera, Proposta de Emenda para que a Constituição federal diga que “todo poder emana de Deus”. Daciolo já anunciara a proposição, há pouco mais de duas semanas, mas, depois que ele conversou com a bancada, a legenda anunciou que ele desistira. Com o “recuo do recuo” do parlamentar, porém, o partido deve abrir nesta quinta-feira (26) processo para expulsá-lo de seus quadros.

Depois da crise aberta pelo anúncio da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) religiosa, contornada politicamente pelos deputados federais do PSOL, Daciolo voltou a irritar o partido por outro motivo. Ao acusar de ilegal a prisão preventiva dos PMs acusados da tortura, assassinato e desaparecimento do auxiliar de pedreiro Amarildo de Souza, o deputado afirmou que os réus são inocentes. Daciolo até gravou vídeo em frente a uma unidade prisional da Polícia Militar, denunciando o que considera ilegalidade. Da tribuna da Câmara, pediu “direitos humanos para os militares” e reivindicou que seu companheiro de partido e deputado estadual Marcelo Freixo visite os presos.

A atuação na Câmara do deputado, que foi líder da greve dos bombeiros no Rio e é parlamentar de primeiro mandato, surpreendeu o PSOL. Daciolo tem apresentado propostas sem discuti-las com ninguém no partido. Procurado, após a apresentação, para debatê-las, não cumpriu o prometido em reuniões. Segundo apurou o Blog Estadão Rio, muitas vezes o deputado não consulta nem mesmo a sua assessoria mais próxima, onde há perplexidade com a situação. Respondeu a críticas à sua ação dizendo estar sendo “blasfemado” por suas convicções religiosas. Na legenda, reconhece-se sua capacidade de trabalho e sua liderança carismática , sobretudo entre praças do Corpo de Bombeiros do Rio.

“Queria deixar bem claro que sou fruto de um Deus vivo”, discursou o deputado, na noite de quarta-feira (25). “Eu me faço presente aqui para honra e glória do Senhor Jesus Cristo. Sou a favor do Estado laico, sou contra a religião. Acredito que meu Deus é criador do céu, da Terra e de tudo que há. E Ele não habita templo feito por mão de homens. O meu corpo é o templo do Espírito Santo de Deus. Eu sou uma igreja. Gosto de ler a Bíblia, gosto de subir monte, acredito no Deus das causas impossíveis. E eu venho decretar aqui agora, deixar em alto e bom som, que verdadeiramente, na minha opinião, todo poder emana de Deus, que o exerce de forma direta e também através do povo. E que hoje estou colocando esta PEC em andamento. As assinaturas estão aqui, e eu quero é dialogar. Peço por gentileza que o PSOL dialogue comigo. Juntos somos fortes, nenhum passo daremos atrás, Deus está no controle.”

Há pelo menos uma semana, em video na internet, Daciolo já deixara claro que pretendia retomar a PEC. O PSOL considera-a inócua, por tratar de clásula pétrea (que não pode ser emendada). O artigo 1º da Carta diz: “ A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: (…) Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”

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