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Décima Obmep revela novos talentos de disciplina-tabu

Em cerimônia no Rio, Olimpíada Brasileira de Matemática premia alunos e professores de escolas pobres e cidades pequenas

Clarissa Thomé

20 de julho de 2015 | 12h44

Vem da pequena Capitão de Campos, cidade a 118 quilômetros de Teresina (PI), a estudante de 13 anos que é campeã na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas para o Nordeste e quinto lugar nacional. Criada pelos avós maternos, Anne Beatriz de Sousa é exemplo de como a OBMEP tem contribuído para incentivar o ensino da matemática no Brasil: seus professores se inspiraram no exemplo da vizinha Cocal dos Alves, cidade de 6 mil habitantes em que 75% dos moradores vivem do bolsa família e acumula 172 premiações da olimpíada.

Criada para estimular o estudo da matemática, tabu das escolas brasileiras, e descobrir talentos vocacionados para a disciplina, a OBMEP premia nesta segunda-feira ( 20), em solenidade a partir das 15h no Teatro Municipal, 501 estudantes e professores na 10ª edição da competição. Nessa década, revelou histórias como a do professor Antonio Amaral, de Cocal dos Alves, que incentivou seus alunos a participar da olimpíada e criou projetos para prepará-los.

A única escola estadual do município garante que 90% dos alunos do 9.º ano tenham nível adequado de aprendizagem na matéria e está entre as primeiras do país no Exame Nacional do Ensino Médio, quando se observam escolas cuja renda dos estudantes é de um salário mínimo. Segundo o Censo de 2010, apenas 88 moradores de Cocal dos Alves tinham curso superior. O desempenho da pequena cidade, que está entre as 30 com pior Índice de Desenvolvimento Humano do País, teve papel disseminador. Noventa e cinco por cento das escolas públicas do Piauí se inscreveram na OBMEP.

“A olimpíada teve impacto em  ambientes especiais; não houve um impacto universal. Requer que o professor esteja determinado a ter a escola na OBMEP, use os vídeos, os livros, acesse os bancos de questões que preparamos. Quando o material chega, e ele nem olha, o resultado é nulo”, afirma César Camacho, diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), que organiza a OBMEP.

Camacho diz que os efeitos da OBMEP ocorrem de formas diferentes. O exemplo da Escola Estadual Terezinha Pereira, na cidade de Dores do Turvo, que amealhou 166 premiações na olimpíada, se reproduziu nas cidades vizinhas da zona da mata mineira.

“Não há conexão entre elas. São iniciativas completamente isoladas. É como se houvesse uma competição entre os municípios”, diz.

Já Cocal dos Alves exportou metodologia. Professores da Unidade Escolar Paulo Ferraz, de Capitão de Campos, estiveram na cidade vizinha para conhecer os métodos, grupos de estudo. Antes dos resultados positivos, foi preciso arrumar a casa. “A escola não tinha conselho escolar, não havia respeito entre alunos e professores, havia até consumo de drogas na escola”, conta o professor Jackson de Oliveira, ex-aluno da Paulo Ferraz. “Quando o professor Werbety Ney assumiu a supervisão escolar, ele recuperou a autoestima dos estudantes. Mostrou que eles tinham capacidade”, diz, referindo-se ao ex-supervisor.

Entre outros programas, Ney criou o Caravana da Educação, em que um grupo de professores vai até a casa dos estudantes para aulas de reforço no contraturno. Anne Beatriz participa dessas aulas. “Eu gostava de matemática, mas não entendia a importância da olimpíada. Quando a minha escola ganhou a primeira medalha de bronze em 2013, eu vi que nós poderíamos conseguir”.

Anne não conheceu o pai. Foi criada pelos avós – um pequeno comerciante e uma dona de casa – e pela mãe, vendedora de cosméticos em domicílio. Passou a se dedicar à matemática, a ponto de estudar madrugada a dentro para terminar os problemas.

“A matemática da OBMEP tem a ver com o nosso dia a dia. É muito mais interessante que a matemática da escola”, diz Anne, que sonha fazer faculdade. Ao ser perguntada sobre que lugar gostaria de conhecer na visita ao Rio de Janeiro, não escolhe os óbvios Cristo Redentor ou Pão de Açúcar. “Quero ir ao IMPA”, diz.

Entre as escolas municipais e estaduais (não seletivas) que participaram da OBMEP 2014, as que conseguiram maior número de medalhas de ouro – três – foram a Escola de Ensino Médio Augustinho Brandão, de Cocal dos Alves (PI); a Escola Estadual Cel. José Ildefonso, de Piranga (MG); a Escola Estadual Quinzinho Inácio, de Senhora de Oliveira (MG); e a Escola Estadual Alice Holzmeister, de Santa Leopoldina (ES). Nesta escola, conquistaram as medalhas de ouro as trigêmeas Fábia, Fabíola e Fabiele Loterio, de 15 anos, que ficaram nas primeiras colocações da OBMEP no Espírito Santo, no nível 2 (8º e 9º anos).

Quando consideradas todas as escolas, incluindo as seletivas, o destaque é para o Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ), que conquistou 18 medalhas de ouro na OBMEP 2014. Dois alunos do CMRJ se consagraram heptacampeões nesta décima edição: Alessandro Pacanowski, admitido na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, onde estudará Economia a partir de agosto; e Luíze D´Urso, que cursa Matemática na PUC-Rio, onde passou em 1º lugar, e faz algumas matérias do mestrado no IMPA.

“Eu era perdidão. Nem sabia que gostava de matemática. Mas na primeira OBMEP ganhei uma medalha de ouro e ganhei uma bolsa de iniciação científica. Aí eu passei a estudar mais a fundo”, conta Pacanowski,. “As questões da olimpíada usam lógica, estimulam o pensamento. Não é só repetição de ideias, como as questões com fórmula do colégio”.

 

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