‘Dor não cessa’, diz mãe de mototaxista morto no Complexo do Alemão
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‘Dor não cessa’, diz mãe de mototaxista morto no Complexo do Alemão

Quase um ano após a morte de Caio de Moraes Silva, PM denunciado por homicídio continua trabalhando em UPP

Carina Bacelar

16 de abril de 2015 | 09h34

Ao saber que o menino Eduardo de Jesus Ferreira, de dez anos, tinha sido morto com um tiro no Complexo do Alemão, a comerciante Denize de Moraes Silva, de 50 anos, “reviveu a memória” da morte do próprio filho. Dez anos mais velho que Eduardo, o mototaxista Caio Moraes da Silva foi assassinado aos 20 anos por um tiro no peito, no mesmo conjunto de favelas, por um policial militar da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) de Nova Brasília, segundo o Ministério Público. O caso completará um ano no mês que vem, quando ocorrerá a primeira audiência sobre o caso (no dia 6). E é em maio também que Denize descobrirá como é passar o primeiro Dia das Mães sem o filho único, que criou sozinha desde o menino tinha sete anos.

“Quando eu soube (da morte do Eduardo), eu pensei: ‘Como pode’? Minha vontade era de gritar junto com aquela mãe e avançar no policial”, lembra Denize. “É uma dor que não cessa, que fica dia e noite. Meu filho tinha 20 anos, mas era meu bebê. Agora imagina o nenenzinho dela, que tinha só dez anos”.

Denize e Caio em foto de 2011: jovem faria 21 anos no começo do mês (Foto: Arquivo Pessoal)

Denize e Caio em foto de 2011: jovem faria 21 anos no começo do mês (Foto: Arquivo Pessoal)

Sem antecedentes criminais e desarmado, Caio Moraes da Silva nunca teve ligação com o tráfico de drogas e foi morto durante um protesto, no dia 27 de maio de 2014. O policial militar Jefferson Andrade dos Santos foi denunciado pelo Ministério Público em outubro por homicídio doloso simples – sem qualificação. Ele responde ao processo criminal e a um inquérito administrativo da PM em liberdade, e continua trabalhando. Foi transferido de Nova Brasília para uma função administrativa na UPP do Alemão.
Quando disparou contra Caio, Santos tinha apenas 40 dias de serviço na Polícia Militar, como ele mesmo admitiu em depoimento à Delegacia de Homicídios da capital fluminense. “O Jefferson era um policial que não deveria estar na corporação”, defende Denize. Já o advogado do policial, Artur Bernardes, disse que sabe que o cliente está trabalhando e negou que a falta de experiência fosse um problema para o policial estar nas ruas.

“Acredito que sim, a polícia o capacitou, até porque o inquérito não investigou tanto esse lado”, argumentou Bernardes, dizendo que o cliente e outros dois policiais estavam “acuados” por uma troca de tiros na região no momento do crime.

Outra coincidência entre os casos de Eduardo e Caio: Santos e os 14 policiais envolvidos na ação que terminou com a morte do menino são defendidos pelo mesmo escritório, o de Rafael Abreu Calheiros, que costuma atender PMs. Nos dois casos, a defesa maneja a hipótese de “erro acidental” dos policiais diante de um confronto com traficantes.

De acordo com o relatório da Polícia Civil, o jovem foi morto por um tiro de pistola. O documento concluiu que havia conflito com traficantes momentos após uma manifestação pacífica de mototaxistas na comunidade de Nova Brasília, da qual Caio participava. “Tal manifestação, embora pacífica em um primeiro momento, evoluiu de forma violenta, culminando em confronto”, escreve o delegado Edson Henrique Damasceno.
Segundo a Polícia Civil, Santos estava com mais dois policiais, que segundo depoimentos, ficaram encurralados em uma padaria por criminosos. Os três relataram ter ouvido “vários tiros”, e dois deles disseram ter visto manifestantes armados.
 “Na dúvida ele poderia ter mandado o meu filho parar, mas ele preferiu atirar. Para eles deve ser bom, é mais um ‘ganso’ que eles mataram. Infelizmente, não deu pra provar que meu filho era um bandido, porque ele não era”, contesta a mãe do mototaxista.
A comerciante espera a condenação do PM ao fim do processo criminal, que terá em 6 de maio a primeira audiência para depoimento de testemunhas . “O que eu quero é justiça. Que ele seja preso, não preste só serviços comunitários. Acho que só assim eu poderia dormir e não ficar me lembrando do meu filho num caixão”. Denize também entrou em março com uma ação indenizatória contra o Estado do Rio.
O caso de Caio foi um dos primeiros desde a instalação da Unidade de Polícia Pacificadora do Alemão em que a responsabilidade por uma morte violenta envolveu PMs da UPP. Desde então, avalia Denize, a  violência no Complexo do Alemão piorou.
“Os confrontos ficaram mais fortes, a polícia se fez mais desestruturada e começou a agredir mais”, observa. Para ela, o Alemão vive uma situação “de guerra”.
E em meio a esses conflitos, desde que o filho morreu, Denize vem sendo uma porta-voz contra a violência policial no conjunto de favelas, onde, segundo relatos de organizações não governamentais e moradores, os tiroteios são praticamente diários. “Acho que no início da UPP até se chegou a acreditar (na pacificação), mas o sonho acabou”, diz ela.
Após as mortes registradas no Alemão no início do mês (além de Eduardo, a de Elizabeth de Moura Francisco, 41 anos), ela falou à Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio. “Eu sou muito mais séria e muito mais determinada. Eu peguei a garra e o amor que ele tinha por essa comunidade e juntei com o meu”, afirma.
Desde a morte do filho, Denize tornou-se ativista (Foto: Reprodução/Youtube)

Desde a morte do filho, Denize tornou-se ativista (Foto: Reprodução/Youtube)

A reunião na Alerj foi em 6 de abril, mesmo data em que o menino Eduardo foi enterrado e o jovem Caio completaria 21 anos. Em sua página no Facebook, “tia Dê”, como Denize é conhecida na comunidade, deixou o ativismo de lado e desabafou: só queria poder ligar para o filho. “Como dói não ter você comigo e ter que viver de lembranças”, escreveu.

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