Em Maricá, 430 mil já usaram passe livre em ônibus em dois meses
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Em Maricá, 430 mil já usaram passe livre em ônibus em dois meses

Prefeito elogia Movimento Passe Livre e afirma que acabou com monopólio; empresas de ônibus contestam tarifa zero na Justiça

Felipe Werneck

07 Março 2015 | 12h58

MARICÁ (RJ) – A autônoma Vanessa Machado, de 32 anos, gastava com passagens de ônibus um quarto da renda mensal de R$ 700 que obtém com a venda de lingerie e outros produtos. Moradora de Maricá, na região metropolitana do Estado do Rio a 50 quilômetros da capital, ela engrossou o balanço oficial de 430 mil passageiros que viajaram de graça em dois meses de passe livre, autorizado pelo prefeito Washington Quaquá (PT) no fim de 2014.

 

Ônibus gratuito e pago se cruzam em ponte para Ponta Negra (Marcos Arcoverde/Estadão)

 

Com 127 mil habitantes, Maricá foi a primeira cidade do País com mais de 100 mil pessoas a adotar a tarifa zero no transporte público. A reportagem esteve lá quando o sistema completou um mês. Vanessa esperou uma hora na fila para embarcar na rodoviária do centro, no fim da tarde, com a filha de um ano e oito meses no colo, mas está satisfeita com a economia.

“Tem muita gente querendo usar. Os ônibus precisam parar várias vezes, por isso demora. Mas agora eu tô economizado um pouco. Achei muito bom”, diz ela, que é casada com um açougueiro e tem outra filha, de 14 anos. Vendedora autônoma, Vanessa não usa vale-transporte. Precisava tirar do bolso os R$ 2,70 de cada passagem.

“O ônibus pago também ficava cheio, também demora e não tem ar-condicionado”, comenta em seguida a professora do ensino fundamental Priscila Moura, de 31 anos. Ela estava logo atrás na fila, que reunia 54 pessoas.

 

Passageiros esperam uma hora para viajar de graça (Marcos Arcoverde/Estadão)

 

Vermelhos, os dez ônibus da Empresa Pública de Transportes (EPT) são equipados com ar-condicionado e elevadores para deficientes físicos. A catraca é usada para contagem de passageiros e a cadeira do cobrador foi mantida, o que tem gerado especulações e boatos na cidade. Alguns dizem temer que a tarifa zero seja apenas uma “promoção” temporária.

Questionado por um morador, Quaquá respondeu: “O prefeito que fizer isso (acabar com o passe livre) vai ter que sair de Maricá à base de porrada”. Ele afirma ter rompido um monopólio de décadas das empresas de ônibus, que contestam na Justiça a criação da EPT e a adoção da tarifa zero. “O setor privado se apropriou de um serviço público para obter lucro. O negócio deles é extorquir dinheiro do povo para enriquecer. Acabamos com um monopólio de quarenta anos”, afirma o prefeito de Maricá, que é presidente estadual do PT.

Logo após o início da operação, o Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários do Estado (Setrerj) apresentou na Justiça uma ação contra a prefeitura e a EPT, alegando prejuízo e solicitando a paralisação das atividades. A autarquia municipal e a prefeitura, que afirma respeitar os contratos de concessão firmados em gestões anteriores, foram notificadas e deveriam prestar informações à Justiça até esta sexta-feira, 6 de março. Procurado, o Setrerj informou que não vai se pronunciar.

“Nossa previsão inicial era botar a passagem a R$ 2,00 e reduzir aos poucos, 50 centavos por ano, mas as empresas e o sindicato criaram tanto problema para a filiação da empresa pública que eu criei uma autarquia e botei a passagem de graça direto”, diz Quaquá. “No geral, as empresas de ônibus controlam a política. Tem mesada na Assembleia Legislativa, tem mesada nas Câmaras de Vereadores e tem dinheiro para os prefeitos. Minha briga sempre foi com os empresários de ônibus. Eles tentaram me derrotar e perderam. É do jogo democrático. Sou defensor do transporte público gratuito e ganhei a eleição”, afirma.

 

 

A reportagem usou a linha Ponta Negra-Recanto, que liga os dois extremos do município, passando pela rodoviária – Maricá tem 363 quilômetros quadrados de área territorial. Em Ponta Negra, o intervalo entre os ônibus era de uma hora e dezoito minutos no início da tarde, apesar de a prefeitura afirmar que eles “circulam com intervalos de 20 minutos, das 5h às 22h, e de uma hora no período de menor movimento, de 22h às 5h”. Antes da EPT, não havia ônibus na madrugada.

Quaquá diz ter comprado mais três veículos a diesel para reduzir os atrasos e planeja completar a frota com 20 micro-ônibus elétricos até 2016. Também afirma que fará uma licitação para incorporar as vans. Segundo ele, o custo mensal de operação da EPT é hoje de R$ 700 mil. “Já temos os recursos para rodar um ano, sem aumento de impostos. Nossa expectativa é gastar de R$ 8,5 milhões a R$ 9 milhões por ano com transporte gratuito, que hoje atende a 70% da população.” O orçamento total do município previsto para este ano é de R$ 550 milhões, diz o prefeito, que enfrenta queda na receita dos royalties com a baixa do preço do petróleo. Ele admite que haverá redução no ritmo de obras.

 

Passageiros viajam de graça no ônibus municipal (Marcos Arcoverde/Estadão)

 

A EPT tem 30 motoristas, que trabalham em três turnos e usam uniformes vermelhos com a inscrição “Ônibus do Povo” nas costas. Uéliton dos Santos Oliveira, de 32 anos, é um deles. Trabalhou por seis anos na viação Icaraí e agora recebe salário mensal de R$ 2.010,00. “Antes, eu tinha que dirigir e cobrar a passagem, agora não tem mais isso de dupla função. Também tinha que pegar deficiente no colo. Agora, os carros têm elevador e ar-condicionado. Melhorou.”

Em 20 de janeiro, quando o sistema tinha completado um mês, o prefeito fez uma apresentação em um centro esportivo e cultural do município. Distribuiu diplomas assinados para todos os motoristas e cortou um bolo em formato de ônibus ao lado da mulher, a deputada estadual Rosangela Zeidan (PT). Quaquá espalhou outdoors pela cidade e cartazes na traseira dos veículos com frases como “Ônibus gratuito: uma conquista do povo de Maricá” e “Ônibus de graça: Maricá sai na frente.”

O balanço de 430 mil passageiros divulgado pela prefeitura refere-se ao total de embarques nos meses de janeiro (241 mil) e fevereiro (189 mil), sem contabilizar os treze dias iniciais de operação em dezembro. “Fevereiro tem menos dias e as viagens foram reduzidas por conta do carnaval, quando os ônibus operaram de 7h às 16h”, informou, em nota.

 

Prefeito cortou bolo quando a tarifa zero completou um mês (Marcos Arcoverde/Estadão)

 

Na rodoviária, as baias de empresas privadas estavam vazias de passageiros, e as duas da EPT, lotadas. “Se você tem um ônibus de graça e outro pago, vai viajar em qual? Só embarca aqui quem tem vale-transporte bancado pelo patrão”, diz um fiscal da viação Nossa Senhora do Amparo, a maior da cidade. Procurada, a empresa não quis se manifestar. Os novos ônibus ganharam apelidos da população como 0800 e Vermelhão.

“Uso direto o Vermelhão. É muito bom. Tem ar-condicionado e é melhor que os da Amparo e da Costa Leste, que cobram para vir no calor e cheio de gente. Foi a melhor coisa que fizeram”, diz o aluno do ensino médio Lucas Neves, de 15 anos. A mãe dele é empregada doméstica. “A gente pagava para vir à praia, mas às vezes não tinha condição. Agora, faço um lanche com o dinheiro da passagem. Maricá tá evoluindo.”

Antes de Maricá, outras cidades menores já tinham adotado a tarifa zero, como Silva Jardim (21 mil habitantes) e Porto Real (16 mil), no Rio; Agudos (34 mil) e Potirendaba (15 mil), em São Paulo; Muzambinho (20 mil), em Minas; e Ivaiporã (31 mil), no Paraná.

Quaquá elogia o Movimento Passe Livre (MPL), que deflagrou as manifestações de junho de 2013, inicialmente contra o aumento da tarifa em São Paulo, mas evita comentar a conduta dos também petistas Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, e Adilson Pires, vice-prefeito do Rio.

 

Prefeitura divulga passe livre: “Maricá sai na frente” (Marcos Arcoverde/Estadão)

 

 “O MPL tá certo do ponto de vista político. Estou preocupado em dar transporte público gratuito de qualidade e acho que o PT deveria assumir isso como bandeira nacional”, afirma o prefeito e presidente regional do partido.

Segundo ele, Maricá pode ser um “grande laboratório” para a discussão sobre transporte no País. “O direito de ir e vir vem da Revolução Francesa. A Declaração Universal dos Direitos Humanos não é nada se não for colocada em prática. Cabe ao Estado garantir os direitos do cidadão. Se não tiver luta da juventude, esse direito nunca será estendido à população, porque o empresário de ônibus tem mais dinheiro, mais poder político e mais influência. Vou cobrar que a meta da tarifa zero faça parte do debate político.”

Quaquá afirma que vai colocar wi-fi nos ônibus gratuitos e diz que pretende usar um deles para levar crianças de Maricá a pontos turísticos da capital nos fins de semana. “Se for populismo dar direitos ao povo, pode me chamar de populista dez vezes por dia.”

Motorista de ônibus na capital, Flávio Oliveira viajava de graça pela primeira vez em seu dia de folga. Ele levou as duas filhas adolescentes, o filho pequeno e a mulher para visitar o tio, que mora em Maricá. “Eu não sabia, descobrimos aqui. A iniciativa é boa. O povo já sofre bastante com falta d’água, esse negócio todo. Pelo menos a passagem é de graça. Já melhora bastante”, diz ele, que pensa em se mudar para a cidade.

Oliveira recebe R$ 1.990,00 da viação Braso Lisboa e trabalha sem ar-condicionado no Rio. “Vamos ver se o nosso salário vai aumentar também”, diz o motorista, referindo-se ao reajuste de 13,3% da tarifa concedido pelo prefeito da capital, Eduardo Paes (PMDB), no início do ano – a passagem custa R$ 3,40 no Rio. A aposentada Luci Wilson visitava Ponta Negra também sem saber que a passagem era grátis. “Pra mim isso é novidade. Quando vi, achei até estranho. Tomara que outras cidades façam a mesma coisa.”

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