Empregados de obras do Comperj fecham ponte Rio-Niterói
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Empregados de obras do Comperj fecham ponte Rio-Niterói

Empreendimento da Petrobrás, investigado por suposto superfaturamento, deixou de pagar fornecedores, o que causou demissões

Redação

10 de fevereiro de 2015 | 12h25

Atualizado às 20h13

Por Felipe Werneck e Mariana Sallowicz

A ponte Rio-Niterói foi interditada nesta terça-feira, 10, por cerca de 300 funcionários do Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj), em construção na cidade de Itaboraí, na região metropolitana. Eles caminharam 20 km até a sede da Petrobrás, no centro do Rio, em protesto contra a demissão de trabalhadores e o atraso no pagamento de salários.

A ponte ficou fechada por duas horas, nos dois sentidos, o que gerou congestionamentos que se estenderam pelas duas cidades. O grupo foi acompanhado por policiais até o centro. “Ô Petrobrás, cadê você, eu vim aqui pra receber!”, gritavam os manifestantes em coro. Pelo menos 2.500 empregados estão sem receber salário desde dezembro e 460 já foram demitidos.

 

Trabalhadores protestaram contra demissões no Comperj (Foto: Fábio Motta)

Trabalhadores protestaram contra demissões no Comperj (Foto: Fábio Motta)

 

O protesto começou na pista sentido Rio no vão central, trecho mais alto da ponte (70 m em relação ao nível do mar). O grupo estava em cinco ônibus, que seguiam para a capital. “Infelizmente, só assim vamos conseguir chamar atenção. Estamos passando necessidade e ninguém faz nada”, disse Paulo Roberto de Souza, 47 anos, que trabalha na montagem de equipamentos. Ele afirmou que está sem receber desde dezembro o salário de R$ 2 mil. “Essa situação começou depois da operação Lava Jato. Antes, não tinha atraso.” Por precaução, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) determinou à concessionária CCR que interrompesse o trânsito nos dois sentidos da ponte.

Policiais formaram um cordão em frente ao prédio da Petrobrás. Não houve confronto. Os manifestantes levaram um “caixão” com um boneco usando uniforme da Alumini Engenharia, uma das empresas do Comperj. Leirson Fabiano Santos Soeiro, de 34 anos, mostrava a carteira de trabalho. Funcionário do Comperj há 1 ano e dois meses, ele era responsável pela operação de guindastes e recebia R$ 4,7 mil. “A empresa não deu baixa nas carteiras e quer que a gente peça as contas para não ter de pagar nossos direitos. Ela trocou de nome porque sabia que isso ia acontecer”, disse ele, referindo-se à Alumini, que se chamava Alusa Engenharia – o nome que aparece nos uniformes.

“Tá todo mundo chateado com a indiferença do governo federal. A maioria aqui votou na Dilma pela manutenção do emprego. Agora, as obras pararam e os trabalhadores vão pagar a conta”, disse Gilberto Soares, de 52 anos, que chefiava a equipe de solda há um ano e oito meses. Recebia R$ 1.760. “Eles precisam dar baixa na carteira para a gente dar um rumo à nossa vida. O que vamos fazer com as contas acumuladas e a geladeira vazia?”

A soldadora Cássia Gonçalves, de 46, disse que é a primeira vez em 12 anos de profissão que fica sem salário. “Estou vendendo empadinha há 26 dias para me virar, pagar o aluguel e comprar comida. A empresa não fala nada, nunca deu uma satisfação. Ganho um terço do meu salário com as empadinhas, mas estou honrando meus compromissos, coisa que a empresa não faz.” O eletricista Jéfferson Washington dos Santos, de 41, que recebia R$ 2,3 mil, disse que não terá como pagar a mensalidade da faculdade de engenharia de automação. Operários afirmaram que pretendem realizar atos durante o carnaval caso não sejam atendidos.

Em nota, a Alumini afirmou que “está sendo impedida pelo contratante das obras, a Petrobrás, de dar continuidade aos trabalhos”. “O salário de dezembro, que deveria ter sido pago em 5 de janeiro, sofreu atraso em razão do bloqueio judicial das contas da empresa. Sem que a Petrobrás liberasse os aditivos contratuais, que somam mais de R$ 1,2 bilhão, a Alumini foi obrigada a pedir recuperação judicial”, alegou a empresa, que acusa a Petrobrás de ter rompido o contrato “unilateralmente”.

A Petrobrás informou que “sempre esteve em dia com suas obrigações” e que rescindiu os contratos com a Alumini por “descumprimento das obrigações da contratada, tais como o não atendimento das determinações regulares da fiscalização do contrato, a lentidão na prestação dos serviços que culminou no abandono da obra e o não pagamento de obrigações trabalhistas, contribuições previdenciárias e depósitos no Fundo de Garantia dos seus funcionários”.

Uma das obras mais caras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o projeto do Comperj já foi alterado várias vezes desde 2008 e teve o orçamento inflado após anos de atraso. O orçamento inicial era de US$ 6 bilhões. Chegou a ser calculado em quase US$ 50 bilhões. Agora, o custo oficial é de US$ 13,5 bilhões. Entre as empresas que atuam no Comperj estão empreiteiras investigadas pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal, como UTC, Odebrecht, Mendes Junior e Toyo Setal, além de empresas subcontratadas como a Alumini.

Desde o início, o projeto foi envolto por controvérsias e críticas de ambientalistas. A escolha do terreno para instalação foi a primeira delas. Venceu Itaboraí, às margens da Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim, último grande remanescente de manguezais da Baía de Guanabara.

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