Família acusa policial por tiro que matou menino no Rio
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Família acusa policial por tiro que matou menino no Rio

Prima diz que Herinaldo Vinicius de Santana brincava com outras duas crianças quando foi atingido. Vinicius, como era chamado pela família, tinha abandonado a escola no ano passado.

Juliana Dal Piva

25 Setembro 2015 | 12h03

Parentes de Herinaldo Vinicius de Santana, 11 anos, disseram que no momento em que o menino foi baleado não ocorria na região confronto entre bandidos e policiais militares. Vinicius, como era chamado em casa, morreu na tarde de anteontem quando brincava com dois amigos e uma prima em uma viela da favela Parque Alegria, no Caju, zona norte. A família diz que o tiro partiu de um PM da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) local. Uma prima da vítima, que pediu para não ser identificada por medo de represálias, disse ao Estado que um policial entrou atirando no beco onde as crianças estavam e que, depois, recusou-se a socorrer o menino.

O menino Herinaldo Vinicius de Santana, 11 anos, morreu na quarta-feira no Caju (foto: arquivo pessoal)

O menino Herinaldo Vinicius de Santana, 11 anos, morreu na quarta-feira no Caju (foto: arquivo pessoal)

A versão de que teria havido um confronto não partiu da PM, que em nota revela ter instaurado Inquérito Policial Militar (IPM) e afastado dos serviços de rua e da UPP os cinco policiais que “patrulhavam o local onde o menor foi baleado”. Também em nota, a Polícia Civil informa sobre a realização de perícia no local dro crime e a abertura de inquérito pela Delegacia de Homicídios da Capital (DH). “Os agentes buscam testemunhas e provas que auxiliem nas investigações. Os PMs envolvidos no fato foram ouvidos e tiveram as armas apreendidas”, divulgou a Polícia Civil.

No enterro, ontem à tarde, no cemitério do Caju, houve hostilidades contra os policiais militares enviados ao local. A PM reagiu com bombas de gás e disparos de balas de borracha. Não houve notificação de feridos.

A prima contou que, antes de ser baleado, Vinicius carregara sacos de lixo para um comerciante e ganhara R$ 1. Com o dinheiro, pretendia comprar uma bolinha de pingue-pongue. “Ele estava com a moedinha na mão quando gritou: ‘ai, tô baleado’. Falei para ele não brincar. Quando olhei para o chão, já estava com tiro aqui (na barriga)”, contou a prima. “Dentro do carro mesmo ele já tinha falecido. Ele falava muito: minha mãe, minha mãe, me ajuda, por favor” diz a prima.

Ele tinha quatro irmãos no Rio e dois em Pernambuco – estado natal da mãe. Um dos irmãos, que também não quis se identificar, disse que, devido à dificuldade financeira da família, eles não conhecem nem a avó nem os irmãos nordestinos. “O maior sonho da minha mãe era voltar lá”, conta o rapaz.

O Estado esteve na última escola onde o menino estudou, o Ciep Tancredo Neves, no Catete, zona sul. Funcionários contaram que ele frequentou a unidade por apenas dois meses no ano passado e depois abandonou os estudos. A Secretaria Municipal de Educação informou não ter registros do menino após essa matrícula.

Em protesto pela morte da criança, moradores fecharam o trânsito na Linha Vermelha, uma das principais vias da cidade, na noite de anteontem. A situação na favela era tensa ontem. Durante a manhã, ao menos 1.208 alunos de escolas municipais e estaduais da região do Caju ficaram sem aulas.

Há cerca de duas semanas, Christian Soares Andrade, de 13 anos, morreu ao ser baleado durante operação policial em Manguinhos, na zona norte. Em abril, no Complexo do Alemão, Eduardo de Jesus Ferreira, 10 anos, morreu com um tiro de fuzil disparado por um policial na porta de sua casa.