Fechamento do Teatro do Jockey, dia 31, gera revolta no público
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Fechamento do Teatro do Jockey, dia 31, gera revolta no público

Prefeitura não quer mais arcar com aluguel pago ao Jockey Club; decisão encerra palco de espetáculos infantis de excelência

Roberta Pennafort

21 Maio 2015 | 14h04

Público foi de 449 mil pessoas em doze anos (Foto: Andrea Nestrea)

Público foi de 449 mil pessoas em doze anos (Foto: Andrea Nestrea)

 

O fechamento, a partir de junho, do Teatro do Jockey, sede do Centro de Referência Cultura Infância, está mobilizando artistas, pais e mães que o têm como parâmetro de espetáculos infantis de excelência. Nas redes sociais, eles rechaçam os argumentos da Secretaria Municipal de Cultura, que paga aluguel ao Jockey Club Brasileiro pelo espaço e o administra, de que os recursos podem ser empregados em bairros da cidade menos cobertos por teatros. A secretaria não divulgou este valor.

As atividades de despedida vão até o dia 31. Com mais de 30 anos de dedicação à pesquisa e ao desenvolvimento de linguagens artísticas para crianças, a diretora, Karen Acioly, à frente da programação há doze anos, se prepara para transferir o trabalho para o Teatro Maria Clara Machado, no Planetário, também da Prefeitura e no mesmo bairro da Gávea, zona sul do Rio. Mas ela não acredita que a nova casa seja suficiente para tudo o que vem sendo realizado: além de espetáculos, o centro, que conta com um núcleo de documentação, oferece residências artísticas, oficinas e possibilidades de experimentação.

“No Planetário só tem palco e bilheteria. Temos uma história que é um tesouro e não podemos retroceder num momento de crise. Recebi a notícia há um mês e estou completamente triste, mas a gente tem que ser resiliente”, diz Karen, que procura parceiros privados para garantir a continuidade e a qualidade de seu trabalho para além da duração de seu contrato com a Prefeitura, que vai até novembro. Até agora, não teve sucesso – os patrocinadores alegam dificuldades financeiras e a iminência dos Jogos Olímpicos de 2016, nos quais as verbas estão sendo concentradas.

Premiada dramaturga, diretora, atriz e escritora, com 35 peças escritas, ela é reconhecida como força motriz do melhor teatro infantil do Rio: instigante, delicado, impregnado de afeto, com espaço para a subjetividade e o exercício da imaginação, e capaz de despertar o gosto pelo teatro desde cedo. Ao Jockey, trouxe 885 espetáculos, assistidos por 449 mil espectadores. Um público interessado mesmo quando não havia poltronas para as crianças pequenas, só cadeiras desconfortáveis e almofadas pelo chão.

“Eu frequento o Teatro do Jockey desde que me entendo por gente, comecei com uns dois ou três anos, e foi muito importante para a minha formação cultural. As peças eram encenadas muito perto da gente, a criança participava muito. Não era essa cultura do espetáculo”, lembra o estudante Gabriel Guttmann, de 14 anos, entusiasta do teatro.

Criado na internet desde o anúncio do fechamento, um abaixo-assinado, que argumenta que o Teatro do Jockey não é substituível,  e que foi responsável pela formação de público de várias idades, já reuniu 1.750 apoiadores. A Secretaria Municipal de Cultura informou que o trabalho terá continuidade no Teatro Maria Clara Machado e que o dinheiro usado antes para o pagamento do aluguel ao Jockey será redirecionado a outros equipamentos, como o Teatro Serrador, no centro.

 

“Lugar de criança é no orçamento”, defende Karen Acioly (Foto: Andrea Nestrea)

 

Karen Acioly é também criadora do Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens, que há doze anos traz ao Rio espetáculos do mundo todo, que misturam teatro, dança, música e performance e agradam também aos adultos. E também do Fórum Nacional Cultura Infância, que discute formas de melhorar o acesso e a vivência de atividades culturais pelas crianças e adolescentes brasileiros.

Militante, conseguiu este mês o aval do ministro da Cultura, Juca Ferreira, para que seja implementada uma política nacional voltada a crianças e adolescentes. O que significa a previsão de linhas orçamentárias em todos os setores do MinC para iniciativas para a infância. A ideia é que as melhoras práticas de todas as unidades da federação dialoguem. “Lugar de criança é no orçamento”, defende Karen.