Funcionários se apegam à fé para tentar evitar paralisação de hospital
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Funcionários se apegam à fé para tentar evitar paralisação de hospital

Atraso no repasse de verbas afeta Hospital Clementino Fraga Filho, e grupo de oração é formado: 'É angustiante", diz diretor

Roberta Pennafort

02 de dezembro de 2015 | 19h11

Referência em procedimentos de alta complexidade, como transplantes e cirurgias cardíacas e neurológicas, o Hospital Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), está apelando até para orações na tentativa de manter suas atividades plenas. A crise financeira do governo federal freou repasses do Ministério da Saúde e, sem recursos para pagar fornecedores, faltam medicamentos, de analgésicos a remédios para câncer, e materiais cirúrgicos. As cirurgias eletivas, entre 25 e 30 por dia, estão suspensas desde a última segunda-feira, e não há previsão para serem retomadas, mesmo que, ontem, tenham sido liberados R$ 3,3 milhões do Fundo Nacional de Saúde.

“Ainda precisamos dos outros R$ 7,7 milhões que estão atrasados, fora os R$ 4,1 milhões previstos para dezembro, que não saíram. Funcionários montaram um grupo de oração porque é muito angustiante trabalhar assim. Paralisar cirurgias foi uma decisão muito difícil, é a antítese do que a gente faz”, desabafou ontem o diretor do hospital, o médico Eduardo Côrtes. “Esse é o hospital que serve aos estudantes de uma das melhores faculdades de medicina do País. Mas não é um problema do Rio; está acontecendo na UFMG (Minas Gerais), na Unifesp (São Paulo), na UFCE (Ceará.”

No âmbito estadual, a crise é a mesma. A penúria fez com que o Hospital Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), tivesse o número de residentes reduzido, assim como o de funcionários terceirizados da limpeza – bolsas e salários estão atrasados há dois meses. Os médicos residentes vêm se revezando na escala que montaram para não prejudicar os pacientes internados. Dos encarregados da limpeza, só 30% têm comparecido. Anteontem, os terceirizados receberam o salário de outubro, mas não há prazo para o pagamento de novembro.

Crise financeira também paralisa a UERJ, e alunos protestam (Foto: Wilton Junior/Estadão)

Crise financeira também paralisa a UERJ, e alunos protestam (Foto: Wilton Junior/Estadão)

O Pedro Ernesto não tem setor de emergência, mas atendia urgências de pacientes em tratamento, agora suspensas. Um cartaz avisa: “Estamos em greve. Atendimentos somente de urgências com risco de vida”. Na Uerj, cerca de 200 estudantes seguem a ocupação iniciada na noite de segunda-feira, como forma de pressionar o governo Luiz Fernando Pezão (PMDB) a  pagar as bolsas dos cerca de 8 mil cotistas e os salários dos funcionários terceirizados, ambos atrasados. Ontem, docentes debatiam se entrariam em estado de greve, o que será novamente tratado em assembleia hoje. Os professores da rede estadual ameaçam entrar em greve na próxima semana, em pleno fim do ano letivo.

Apenas os servidores que ganham até R$ 2 mil receberam o salário integral. Quem tem vencimentos superiores está se fiando na promessa do governo de finalizar o pagamento no próximo dia 9. Caso a parcela não seja depositada, os professores estaduais ameaçam parar. A categoria tem assembleia no dia 8. “Salário da gente é algo sagrado. Não posso parcelar o pagamento do meu condomínio. O trabalhador não pode pagar por uma crise que não foi ele que criou”, disse Dorotea Frota, coordenadora do Sindicato Estadual dos Professores.

“Soubemos pela imprensa, na antevéspera do dia do nosso pagamento, que só sairiam R$ 2 mil. Na crise, os primeiros  prejudicados são os servidores. É justo arcarmos com esse peso? O mínimo que um trabalhador espera é receber salário”, afirmou o presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia, Rafael Barcia. A segunda parcela do 13º salário (a primeira saiu em julho) poderá não ser paga. O governador já disse que espera depositá-la até o dia 17. Mas não garante.

A crise financeira do Estado está inserida no contexto da desaceleração da economia nacional e tem duas causas principais: a queda da arrecadação de ICMS e do pagamento dos royalties do petróleo, por causa da diminuição do preço do barril (de U$ 100 para U$ 40). Entraram nos cofres R$ 12 bilhões a menos do esperado para este ano. A receita de ICMS, segundo a Secretaria de Estado de Fazenda, aumentara 8,8% em termos reais em 2013. Caiu 3,4% em 2014. No primeiro semestre de 2015, mais ainda: 9,7%. Buscando sair do buraco, o governo conseguiu a aprovação de 12 projetos de lei na Assembleia Legislativa, que geraram receitas extras. Ainda assim, falta caixa.

“Desesperar, jamais. A situação é muito difícil, mas temos que conseguir as melhores saídas possíveis. A gente está consternado (pelos servidores), mas não tem máquina de fazer dinheiro”, alegou o secretário de Fazenda, Julio Bueno. Com os fornecedores, a dívida é calculada em torno de R$ 1 bilhão. Para 2016, o caminho está nas receitas extraordinárias, vindas, por exemplo, da securitização da dívida ativa e da venda de terrenos do Estado, pois as fontes tradicionais devem continuar mais secas do que o de costume. “Como subir a arrecadação com o Produto Interno Bruto (PIB) reduzido?”, perguntou Bueno.