“Ganhar era improvável”, diz carnavalesco da Mangueira
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“Ganhar era improvável”, diz carnavalesco da Mangueira

Em seu primeiro ano no Grupo Especial, Leandro Vieira, de 31, anos, caçula da avenida, chegou desacreditado à escola

Roberta Pennafort

11 de fevereiro de 2016 | 17h47

“Não pensava em ser carnavalesco”, diz Leandro Vieira (Foto: Fabio Motta/Estadão)

 

Carnavalesco-sensação deste ano, Leandro Vieira, idealizador do desfile campeão da Mangueira, em homenagem a Maria Bethânia, chegou desacreditado à escola. Era março de 2015 e o novato, caçula entre seus pares (31 anos), nunca havia assinado um carnaval no Grupo Especial. Ele havia acabado de estrear na Caprichosos de Pilares, na segunda divisão, depois de oito anos como figurinista de outros carnavalescos, e ficara em sétimo lugar, resultado que não foi considerado consistente pelos mangueirenses mais conservadores. Quando começou a promover mudanças em estruturas antigas da Verde-e-rosa, a resistência contra ele se intensificou.

“Para ganhar o carnaval pela Mangueira, não basta talento. Se fosse assim, a Rosa Magalhães (carnavalesca da escola em 2014) teria vencido, porque não existe ninguém mais talentoso do que ela”, acredita Vieira. “Briguei para incluir cores diferentes do verde e do rosa, para ter um cartela de verdes e rosas mais suaves, para incluir alas coreografadas, para diminuir o número de destaques dos carros, deixando a alegoria mais em evidência. Precisei de coragem para discutir. Não cheguei disposto a ser simpático, não tinha amigos na Mangueira nem história no carnaval, então tudo bem desagradar. Na manhã do desfile um senhor viu o abre-alas (de tons dourados, quando a tradição é abrir em verde e rosa) e gritou comigo: ‘mas isso é um crime!’”

Foi o presidente da escola, Francisco de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira, quem enxergou suas qualidades na Caprichosos de Pilares. O desfile sobre mercados populares lhe rendera seis prêmios de revelação, dados por júris especialistas em carnaval. “Eu tinha uma admiração muito grande por ele e resolvi apostar. Ele acredita em mim e eu confio nele, tanto é que nem temos contrato por escrito”, brinca Chiquinho. A permanência de Vieira na escola depende também de sua continuidade – a Mangueira terá eleições em breve.

Chiquinho também foi quem deixou de lado as propostas de enredos patrocinados, uma sobre a cidade de Belém (PA) e outro sobre lutas do tipo vale tudo (MMA) e comprou a ideia trazida já pronta por Vieira: um tributo à religiosidade de Bethânia, “a menina dos olhos de Oyá”, caminho menos óbvio do que seria louvar apenas sua trajetória artística, de 50 anos.

Curiosamente, Vieira, que é casado há sete meses com a primeira porta-bandeira da Verde-e-rosa, Squel Jorgea, não tinha qualquer familiaridade com o universo dos cultos afrobrasileiros, cerne da apresentação. Precisou pesquisar a fundo. Foi justamente a reverência a seu orixá que fez Bethânia encampar a ideia: “Foi tudo para Oyá. Leandro é destemido, bonito e tem muito bom gosto. É lindo uma cantora popular brasileira ser um tema. Quando é Chico Buarque, Tom Jobim, são autores”, declarou a cantora baiana.

De volta ao barracão nesta quinta-feira, 10, para coordenador ajustes para o Sábado das Campeãs, Vieira não parecia transformado pela vitória. Deu entrevista ao Estado enquanto almoçava no Bob’s da praça de alimentação da Cidade do Samba. Ele disse que não acreditava que venceria. “Eu não pensei em ganhar, nem desejei ganhar, era muito improvável. Eu trabalhei para voltar no sábado, para colocar a Mangueira de volta no lugar dela (a escola vinha de um antepenúltimo lugar em 2015)”. A escola, segunda maior campeã da história do carnaval carioca, tem agora 19 campeonatos, dois atrás da primeira colocada, a Portela.

Artista plástico formado pela Escola de Belas Artes (EBA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, filho da classe média baixa de Vicente de Carvalho, na zona norte do Rio (os pais são comerciantes), ele sempre gostou de desenhar, no que foi muito incentivado pelos pais. Na hora do vestibular, fez somente a prova da EBA. “Eu não sei fazer nada, só desenhar. Se eu tentasse qualquer outra coisa, não passaria”, brinca o carnavalesco, que tocou cuíca na bateria da Portela por oito anos, enquanto desenhava figurinos para carnavalescos como Mauro Quintaes, Cahê Rodrigues e Fábio Ricardo. Atualmente na Unidos da Tijuca, Imperatriz e Grande Rio, respectivamente, os três foram superados pelo antigo colaborador.

“Não pensava em ser carnavalesco: eu gosto da festa, de tomar cerveja, de quadra, roda de samba,  feijoada”, ri Vieira, que afasta a alcunha de “novo Paulo Barros” (o carnavalesco venceu em 2010, 2012 e 2014 e é considerado o mais inovador do Rio), por achar que eles têm estéticas diferentes. “Acho que coloquei o primeiro tijolo para construir uma carreira, mas não posso dizer que desenvolvi um estilo. Deu certo uma vez, pode não dar na segunda. Queria construir algo como a Rosa e o Renato Lage (Salgueiro) construíram. Cresci vendo os dois disputando.”

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