Hino brasileiro embalou o centenário da independência americana, em 1876
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Hino brasileiro embalou o centenário da independência americana, em 1876

Composição, no entanto, não teve o impacto esperado por d. Pedro II, que encomendou a música. O episódio foi contado pelo próprio imperador em diário divulgado agora pelo Museu Imperial

Clarissa Thomé

04 de julho de 2015 | 00h02

No 4 de julho de 1876, comemoração do centenário da independência americana, o que se ouviu foram acordes brasileiros – um hino composto por Carlos Gomes especialmente para a data. O cenário foi a Exposição Universal, na Filadélfia. Mas a homenagem encomendada por d. Pedro II não causou o impacto esperado. E quem reconheceu foi o próprio imperador, que narrou o dia de festa num dos diários de viagem.

“(…) Custou-me a romper o povo para chegar ao hotel, sobretudo porque a tropa vinha marchando; mas com algumas cotoveladas consegui entrar no hotel. Almocei e fui para a festa. Que calor! O hino de Carlos Gomes não se ouvia quase pela distância e bulha do povo.”, escreveu Pedro II, que havia presenteado o presidente americano Ulysses Grant com uma partitura do hino, composto pelo autor de “O Guarani”.

 

diario

Reprodução da página de 4 de julho de 1876 do diário de d. Pedro II (Acervo Museu Imperial)

A página do diário, escrita há 139 anos, é publicada hoje no site do Museu Imperial, que desde o fim de abril exibe o dia a dia da viagem de três meses que Pedro II fez pela América do Norte. Com o cuidado de quem sabia que escrevia para a posteridade, o imperador registrou cada passo em mais de 40 cadernos. O conjunto foi reconhecido em 2013 como Memória do Mundo da Unesco, título conferido a documentos que equivale ao de Patrimônio da Humanidade concedido a monumentos.

A partitura manuscrita do hino em homenagem ao centenário da independência americana faz parte da Coleção Carlos Gomes, doada ao Museu Imperial pela filha do compositor.

 

Hino Carlos Gomes

A partitura manuscrita do hino composto por Carlos Gomes. (Acervo Museu Nacional)

A seguir, a transcrição na íntegra do diário de 4 de julho de 1876.

“Às 7 saí para assistir à inauguração da estátua de Humboldt no Fairmount Park. Chegando antes das 8 dei ainda um passeio de carro no parque. Às 8 ainda não tinha chegado na comissão diretora. Falei com o comissário alemão na exposição. Apresentou-me o cônsul Schumacher e enfim vendo que tardava a cerimônia – eram 9 retirei-me.

O vento descobriu a estátua – é de Drake – e pareceu-me a fisionomia não está muito parecida. Está de pé com uma folha na mão esquerda onde se lê Cosmos. No pedestal de granito lêem-se datas de nascimento e morte – Os cidadãos alemães da cidade de Filadélfia – o cônsul disse-me andarem por 100.000 – e estas palavras tiradas do Cosmos – Nature is the Empire of freedom – As outras inscrições também são em inglês.

Na volta custou-me a romper o povo para chegar ao hotel, sobretudo porque a tropa vinha marchando; mas com algumas cotoveladas consegui entrar no hotel. Almocei e fui para a festa. Que calor! O hino de Carlos Gomes não se ouvia quase pela distância e bulha do povo. A poesia de Bayard foi bem recitada pelo autor. Evarts proferiu como orador amestrado o seu discurso escrito e interminável; mas a sua voz não é forte e creio que o respeitável público aplaudia quando ele acionava com mais energia. A praça ao pé do City Hall estava apinhada.

Antes de entrar no hotel visitei a imprensa do Ledger dirigido pelo Child. É uma casa muito grande de 4 andares. O Ledger é diário de 85 mil folhas de tiragem. Também imprimem-se aí anúncios com figuras coloridas. Depois do jantar fui à penitenciária. Sistema de reclusão absoluta. Acompanhou-me Lopes Neto. Achamos as celas pouco arejadas e o Lopes Neto notou outros defeitos concernentes à vigilância dos presos, como haver porta no muro que fecha o lugar de passeio ao ar livre no fundo de cada cela etc. Estava limpa e cumpre dizer que foi construída há 40 anos. Segui para o parque. Estava um fogo armado que dizem importava em 20.000 dol.

Muita gente assentada ou deitada pelas pedras das colinas. Dei um giro, e na volta já vi balões de diversas cores subindo aos pares. A chuva creio que pelo menos destruíram um pouco o efeito do fogo de artifício. Antes de 9 ½ estava em casa do negociante Drexel. Não é tão bonita como a do Child. Muita gente toda do sexo masculino. Calor de abafar.”

 

 

 

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