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Hospitais do Rio alertam sobre golpes contra pacientes

Com informações sobre doentes internados, criminosos se passam por funcionários e exigem pagamentos das famílias

Carina Bacelar

21 Setembro 2015 | 10h24

Famílias de pacientes internados em hospitais do Rio têm um motivo a mais para preocupação, além do próprio estado de saúde dos parentes. O motivo é um golpe que vem sendo aplicado em unidades de saúde estaduais, municipais, federais e até particulares.

Estelionatários, geralmente com informações precisas sobre o quadro clínico dos hospitalizados, telefonam para parentes dos doentes, cobrando por falsos tratamentos e medicamentos emergenciais. Desesperadas, algumas vítimas depositam dinheiro em contas bancárias dos criminosos.

Os casos chamaram a atenção da Secretaria Estadual de Saúde, que iniciou campanha de conscientização em hospitais para “reforçar que o atendimento e o tratamento de pacientes nas unidades públicas de saúde é 100% gratuito, a fim de inibir esse golpe”. O órgão estadual preferiu não divulgar o número de vítimas, mas reconheceu que a prática existe.

“As famílias que são abordadas pelos falsários são encaminhadas para o serviço social da unidade em que os pacientes estão internados, onde recebem orientação de procurar a delegacia local mais próxima para prestar depoimento e registrar o caso”, informou a secretaria em nota.

A Secretaria de Saúde da Prefeitura do Rio confirmou que uma ocorrência do crime foi registrado em sua rede, no Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca (zona oeste). A vítima foi a professora Silvana Gonçalves de Oliveira Batista, de 37 anos. No ano passado, em pleno dia de Natal, seu marido, Alex Gomes Batista, de 40 anos, foi internado com uma inflamação aguda no pâncreas.

“Ele deu entrada no hospital em estado gravíssimo, com 20% de chances de escapar”, lembra. No dia seguinte, ela recebeu a ligação de um homem que se identificava como médico do hospital. O golpista, que mencionou ao telefone informações detalhadas sobre o quadro do paciente, dizia que Batista precisaria de uma cirurgia, porque estava com sangramento abdominal.

Usando termos técnicos, disse que não havia no hospital público o equipamento necessário para o procedimento. Pediu à família, então, que depositasse R$ 2 mil em sua conta bancária para que utilizasse o aparelho apropriado de seu consultório particular. Assim fizeram Silvana e o irmão do marido.

“A gente fez o pagamento e quando chegamos no hospital, ele não tinha sangramento abdominal nenhum e estava se recuperando. Fomos lesados”, reclamou a professora. O caso é investigado pela Polícia Civil. Silvana disse que deveria haver mais avisos sobre o golpe para pacientes e acompanhantes dentro de hospitais.

Quase 10 meses depois do caso da professora, essas advertências se multiplicaram em unidades de saúde do Rio. O Hospital Samaritano, em Botafogo (zona sul), fixou em seus quartos um comunicado reforçando que eventuais pagamentos serão informados por contato pessoal, nunca por telefone. Em nota, o Samaritano, privado, confirmou que houve pacientes abordados por falsários, mas que todas as tentativas foram frustradas.

Ligações de falsos médicos já foram recebidas também por pacientes do Instituto Nacional de Cardiopatia (INC), da Casa de Saúde São José, do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho e do Hospital Pró-Cardíaco. No Hospital Vital, no Engenho da Rainha (zona norte), pacientes se depararam este mês com avisos sobre o golpe nas instalações do hospital. A administração da unidade não foi localizada para comentar os episódios.

O diretor do Clementino Fraga Filho, Eduardo Côrtês, explicou que, no início de julho, famílias de três pacientes foram procuradas por criminosos com a mesma história. Eles pediam R$ 800 reais pela contratação de um anestesista para uma cirurgia de emergência. O caso é investigado pela Polícia Federal (PF), porque o hospital pertence à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para Côrtes, há envolvimento de funcionários do hospital no esquema.

“Tem que ter colaboração interna”, afirmou.

Se for comprovada a participação de servidor público da unidade, ele pode vir a ser exonerado, além de responder criminalmente. Desde julho, nenhum novo caso foi registrado.

A procuradora federal e professora de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Silvana Battini afirma que o segredo para não cair no golpe é “desconfiar, sempre, de qualquer telefonema”. “Se é urgente, a pessoa tem que ir até o hospital”, explicou. Silvana disse que, caso fique provada a participação de funcionários dos hospitais no esquema ou no vazamento de dados que o alimenta, a instituição poderá ser processada.

“Muito provavelmente tem uma quadrilha e está envolvendo gente dos hospitais. Então isso vai precisar de um trabalho de investigações. Os hospitais são guardiães e responsáveis pelo sigilo das informações que guardam”, ressaltou.