Moradores relatam rotina de violência e restrições no Alemão
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Moradores relatam rotina de violência e restrições no Alemão

Moradores reclamam de mortes atribuídas a policiais; ativista de ONG pede que nova ocupação seja 'educacional, cultural e de lazer'

Carina Bacelar

07 de abril de 2015 | 11h56

Uma sucessão de restrições, falta de serviços e violência policial. Assim moradores do Complexo do Alemão, palco de confrontos na última semana nos quais quatro pessoas foram mortas em dois dias, caracterizaram sua rotina na região. Eles foram ouvidos nesta segunda-feira, 6, pelo presidente da Comissão de Direitos da Câmara, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), e pelo presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). Entre eles, estavam o marido, a irmão e o filho de Elizabeth Moura, morta na última quarta-feira com um tiro no rosto no Complexo do Alemão. Maycon Moura, de 21 anos, disse que o irmão, de apenas seis anos, viu a morte da mãe.

Policiais no Alemão: moradores acusam agentes de truculência (Fabio Motta/Estadão)

Policiais no Alemão: moradores acusam agentes de truculência (Fabio Motta/Estadão)

“Meu irmão de seis anos viu tudo. Ninguém do governo foi procurar a gente”, declarou.

Maycon garante que a mãe foi assassinada por um policial militar da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), o que afirmou ter declarado à Polícia Civil. No dia seguinte, relatou, o PM estava de volta à comunidade. “Minha mãe tinha acabado de chegar ao trabalho. Ela queria apenas proteger os filhos dela, fechar a porta, quando foi alvejada”.

Já Denise Moraes perdeu um filho – Caio Moraes, mototaxista que, aos 20 anos, levou um tiro de fuzil nas costas, disparado por um policial militar. Segundo ela, o laudo balístico da Polícia Civil constatou que o projétil partiu da arma de um PM, que estava havia apenas 40 dias nas ruas. “Com sete meses de curso, ele pode sair para atirar”, criticou. A Polícia Civil, até o fechamento deste texto, não confirmou o indiciamento de um policial militar no inquérito.

Outras restrições. Além da violência, a ingerência de policiais das UPPs na vida cotidiana incomoda moradores. José Carlos Ramos, que administra uma igreja batista no Complexo do Alemão e é cunhado de Elizabeth Moura, afirmou que policiais militares arrombaram a porta da igreja na última semana. Foi  a segunda vez que um episódio como esse aconteceu com Ramos, que mora há 55 anos no Alemão. Ele afirmou que já teve de pedir autorização da UPP para a realização de um culto.

“Nós já passamos por muitas situações difíceis, mas infelizmente esse é o momento mais crítico. Eu tenho medo de sair da minha casa à noite”, relatou. Lúcia Cabral, diretora da ONG Educap, criticou o Estado. “Agora o governo falou em reocupação, mais armas. Por que ele não falou em mais programas sociais? Quero que o governo entenda que a ocupação seja educacional, cultural e de lazer”, pediu. “Depois da morte do Eduardo (de Jesus Ferreira, de dez anos, na última quinta-feira) as crianças estão com medo”.

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