No Aterro do Flamengo, cadeirante comanda assalto e acaba preso
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

No Aterro do Flamengo, cadeirante comanda assalto e acaba preso

Policiais aproveitam presença de repórter entre vítimas para reivindicar adicional atrasado e reclamar de impressora quebrada

Luciana Nunes Leal

02 de março de 2016 | 11h14

Quando entrei no ônibus da linha 415 na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, pouco antes das 20h da terça-feira, 1º, e vi um  cadeirante,  com um rapaz sentado a seu lado, no banco de acompanhante, pensei: “Que bom que o equipamento para cadeira de rodas está funcionando,  porque muitas vezes está com defeito”. Logo esqueci o assunto e passei olhar o movimento da rua pela janela.  Na entrada do Aterro do Flamengo, fui surpreendida pelo anúncio do assalto,  feito por um jovem que vinha da frente para o meio do ônibus. Vi que a cadeira do acompanhante estava vazia e logo entendi que ele era mais um assaltante.

E o cadeirante?

Também fazia parte da quadrilha e supervisionava os comparsas.  Outros quatro assaltantes saíram do fundo do ônibus e passaram a recolher dinheiro, celulares e relógios.  “Quero matar”, dizia o mais exaltado, que afirmava estar armado. “Bem que eu desconfiei,  esse da cadeira de rodas não parava de olhar lá para trás, onde estavam os outros”, disse baixinho a senhora ao meu lado. Já era tarde, não dava mais para descer. Eu não havia percebido nenhuma movimentação estranha.

Desconfiado de um passageiro de terno e gravata,  que julgava ser policial, um dos assaltantes o revistou, mas não encontrou nenhuma arma. Em menos de cinco minutos (foi o tempo que me pareceu), roubaram tudo e fugiram.  Eu estava sentada em frente à porta de saída,  fui a última a entregar o celular. Nem pediram meu dinheiro.

ROUBO - RJ - 02/03/2016 - ROUBO/ATERRO - CIDADES OE - Pertences que tinham sido roubados em assalto a passageiros no Aterro do Flamengo, recuperados pela Polícia. Foto: DIVULGAÇÃO

Os bens recuperados e as armas apreendidas. Foto: DIVULGAÇÃO

Um assaltante segurou na parte da frente e outro atrás da cadeira de rodas. Com muita agilidade, desceram o cadeirante pela escada. O homem que fora revistado, um advogado, pediu para desembarcar logo depois, ainda no Aterro. Os demais passageiros, como eu, seguiram viagem, com aquela sensação de impotência, alguns de revolta,  e de alívio por não ter acontecido nenhuma tragédia.

O passageiro que fora revistado, porém, encontrou policiais militares, que acionaram os agentes da Operação  Aterro Presente. Eles prenderam os assaltantes rapidamente. A operação foi criada no fim do ano passado para reforçar a segurança do Parque do Flamengo, área de lazer onde são comuns assaltos aos ônibus que circulam pelas suas duas vias expressas e visitantes.

Segundo a polícia, os sete ladrões, depois de fugir,  ficaram  juntos, o que é incomum. Em geral, assaltantes se dispersam após cometerem os crimes. Assim, dificultam as prisões. O advogado avisara aos policiais que havia um cadeirante na quadrilha e que alguns usavam mochilas. As informações facilitaram que fossem localizados.

Na 9ª DP (Catete), os policiais fizeram contato com cada um dos passageiros, ligando para números de telefones registrados nos celulares recuperados. Cerca de 23h, em casa, fui informada de que meu telefone tinha sido recuperado, e os assaltantes,  presos. Por volta da meia-noite, quatro vítimas estavam na delegacia, onde foram ouvidas e receberam de volta os bens roubados.

Logo que cheguei à 9a. DP (Catete) – ainda era 1º de março, aniversário de 451 anos do Rio de Janeiro -,  um dos policiais quis saber:

“A senhora é amiga do (governador Luiz Fernando) Pezão (PMDB)?”

Expliquei que sou jornalista e por isso tenho o telefone do governador no celular.

“Diz para ele que a situação está difícil,  o RAS, um tipo de gratificação, está atrasado, mas a gente continua trabalhando,  prendendo bandido”, disse o agente.

Outro lembrou que a impressora do andar térreo está quebrada e é preciso subir ao primeiro andar para imprimir documentos, o que pude constatar quando fui registrar o roubo.

Os policiais disseram que o cadeirante, identificado como Rodrigo Duarte de Oliveira, de 33 anos, era o mais velho e chefe da quadrilha. Ele contou que ficou paraplégico depois de levar cinco tiros da ex- mulher.

Foram encontrados com os assaltantes uma pistola de brinquedo, estiletes e facas. Os policiais informaram que, com exceção de Oliveira,  os demais presos tinham pouco mais de vinte anos. Todos relataram ter filhos pequenos.

Os presos foram identificados como: João Monteiro Tavares, 25 anos, morador do Complexo do Alemão; Lucas Nascimento de Souza, 18 anos, morador de Belford Roxo; Pedro Henrique Silva Nogueira, 21 anos, morador do Jacaré; Alex Henrique Conceição Pinheiro, 19 anos, morador do Morro da Mangueira; Valmir Júlio Costa, 20 anos, morador  do Morro da Mangueira, e Bruno de Oliveira Souza, 22 anos, morador de Belford Roxo.

A irmã e a mulher de um dos presos, a mulher de outro e a mãe de um terceiro foram à delegacia, depois de avisadas pela Polícia da prisão dos parentes. Elas não puderam vê-los e voltaram para casa

Durante o assalto, procurei olhar o mínimo possível para os criminosos. Na delegacia,  vi facas, estiletes e uma pistola de brinquedo encontrados com eles. Tinham roubado seis celulares, um relógio e R$ 561. Os assaltantes passariam a noite na carceragem da delegacia. Menos o cadeirante.  A cadeira de rodas não passava na porta estreita da cela.

 

Tudo o que sabemos sobre:

AssaltoAterro PresenteCadeirante

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.