Novo ministro de Ciência e Tecnologia se distancia de Cunha
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Novo ministro de Ciência e Tecnologia se distancia de Cunha

"Não tenho nada a falar contra Eduardo Cunha. Agora, ele tem a história política dele e eu tenho a minha", diz Pansera.

Juliana Dal Piva

03 Outubro 2015 | 11h41

Um lá e outro cá. Horas depois de ser oficialmente confirmado como ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, o deputado federal Celso Pansera (PMDB/RJ) já assumiu um discurso de tom distante em relação ao presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Em seu primeiro mandato como deputado federal, Pansera teve a curta trajetória marcada pela atuação na CPI da Petrobras e por ter sido apontado pelo doleiro Alberto Youssef como “pau mandado” de Cunha.

“O presidente tem a posição dele e tem a do PMDB. Estou mais do lado do partido, de dar apoio político e segurança institucional ao governo”, disse Pansera ao Estado. Mesmo assim, o novo ministro fez questão de não criticar o aliado. “Não tenho nada a falar contra Eduardo Cunha. Agora, ele tem a história política dele e eu tenho a minha, que convergiu nesse momento para o mesmo partido”, acrescentou.

Celso Pansera, o novo ministro estava em seu primeiro mandato como deputado federal (foto: DIDA SAMPAIO/ ESTADÂO)

Celso Pansera, o novo ministro estava em seu primeiro mandato como deputado federal (foto: DIDA SAMPAIO/ ESTADÂO)

Gaúcho de São Valentim, perto da divisa com Santa Catarina, Pansera completará 52 anos amanhã. Ele começou a trajetória política na Convergência Socialista, corrente trotskista do PT. Em 1988, se tornou secretário-geral da União Nacional dos Estudantes (UNE). No ano seguinte, mudou-se para o
Rio. Ex-colegas de movimento estudantil contam que ele era excessivamente disciplinado, mas participava pouco das “partes difíceis”. No governo do presidente José Sarney, os estudantes chegaram a ocupar a sede carioca do Ministério da Educação durante um mês para protestar contra o corte de verbas nas universidades. Pansera, de acordo com eles, somente aparecia para discursar.

O novo ministro foi um dos fundadores do PSTU em 1994. Sua base política sempre foi Duque de Caxias, cidade na Baixada Fluminense, onde militou na Frente Revolucionária, origem do PSTU. Antes, esteve filiado ao PT, que deixou junto com integrantes do grupo trotskista Convergência Socialista para fundar o PSTU. Chegou a dirigente do partido, de extrema-esquerda, mas no início dos anos 2000 deixou-o por entender que a legenda cometia um “erro histórico” ao não apoiar a eleição do petista Lula à Presidência da República.

Depois, Pansera passou pelo PSB e chegou ao PMDB em 2013, por influência do prefeito de Duque Caxias, Alexandre Cardoso, com quem trabalhara durante vários anos. Por indicação de Cardoso, foi nomeado diretor da Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec) em 2007 – no primeiro governo de Sérgio Cabral (PMDB). Dois anos depois chegou à presidência da instituição, onde ficou até 2014. A gestão de Pansera foi marcada por críticas de sindicalistas por “inflar” cursos profissionais de curta duração, em detrimento dos cursos regulares de três anos, contratar professores terceirizados e fazer nomeações políticas no interior do Estado.

Enfrentou pelo menos duas greves. A última resultou na aprovação do plano de cargos e salários dos servidores. Realizou o primeiro concurso público para a fundação em quase dez anos. Em seu perfil, Pansera escreve que mais de 60 “unidades escolares” foram instaladas nos sete anos em que esteve à frente da Faetec. “Fez um excelente trabalho”, elogiou o governador do
Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB).

É o trabalho na fundação que ele acredita que o credencia para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A partir da posse, ele diz que pretende abrir mais espaço para a criação de empresas de tecnologia. “Vou seguir muito do que está sendo feito. Acho que a gente tem que avançar na questão de pesquisa aplicada à eficiência do trabalho, que é uma coisa que atuei muito na Faetec, em tecnologias para melhorar a profissão.”

Para ele, o caminho até o ministério começou a ser traçado na fidelidade ao partido desde sua eleição em 2014, com 58.534 votos – logo na primeira disputa. “A conquista foi a bancada confiar em mim e indicar meu nome. Isso tem a ver com minha coerência política nesse período de fazer a defesa do governo e do ajuste fiscal”, afirmou. Em junho, aliados contam que a primeira reunião de reaproximação da bancada do PMDB com Giles Azevedo, assessor especial da presidente Dilma, foi na casa de Pansera em Brasília. Esse foi outro ponto que contou a seu favor na escolha.

Apesar de ter o nome indicado há mais de uma semana, o convite oficial só veio anteontem à noite em reunião no Palácio do Planalto com a presidente, Azevedo e o ministro Ricardo Berzoini, da nova Secretaria de Governo. Sobre possíveis resistências em função do vínculo com Cunha, Pansera foi sucinto. “A presidente foi muito carinhosa, muito receptiva por sinal. A partir da fala do Yousseff criou-se uma imagem. Não há que se fazer essa imagem. Eu gosto dele (Cunha). Não posso falar mal em hipótese alguma do Eduardo Cunha, mas eu tenho as minhas posições.” Em julho,  Pansera vendeu o restaurante que tinha na Baixada Fluminense, batizado de Barganha.