“O carioca não é tão gregário assim”, diz antropóloga
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

“O carioca não é tão gregário assim”, diz antropóloga

Nos 450 anos do Rio, Julia O'Donnel, professora da UFRJ, analisa os estereótipos que cercam os moradores da cidade.

Clarissa Thomé

01 Março 2015 | 08h26

testeira-rio450

Acredita-se que a vocação do Rio sempre tenha sido a de se voltar para a praia, para a orla. A antropóloga Julia O’Donnel, autora do livro A invenção de Copacabana: cultura urbana e estilos de vida no Rio de Janeiro (1890-1940), diz que não é bem assim: a zona sul como centro de prestígio foi uma construção bem sucedida de moradores, apoiados pelo mercado imobiliário. Ela ressalta que a imagem que se tem do carioca malandro, que gosta de praia, é a desse carioca da zona sul. “Mas é muito mais um estereótipo. Não existe um carioca. O carioca é mais complexo que isso”, afirma a professora do departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

ESPECIAL RIO450/JULIA O'DONNEL/ANTROPÓLOGA

A antropóloga Julia O’Donnel estudou a formação da zona sul (Foto: Fabio Motta/Estadão)

 

 

O que é a carioquice? Pode-se dizer que o carioca tem uma identidade única?
Acho que não. Há um processo de construção de identidades, como há invenção de tradições e vale não só para o Rio de Janeiro, como para outros lugares. Claro que tem o estereótipo – é o cara que gosta de praia, o malandro, o cara que dá um jeitinho. Mas é muito mais um estereótipo. Não existe um carioca. O carioca é mais complexo que isso.

Agora no verão tivemos os arrastões nas praias da zona sul. Houve propostas de barreiras, revistas nos ônibus. O carioca tem dificuldade de lidar com o próprio carioca?
Sim, existe muito. A gente vê discursos muito recorrentes da ideia de que zonas da cidade pertencem a certas pessoas. É claro que espaço público é público, que em princípio todos podem ir à praia, andar nas ruas. Mas a gente vê ruas fechadas, privatizadas. Vê a atitude da polícia de revistar determinadas pessoas. Essa decisão de revistar grupos de jovens, vindos da zona norte, na chegada à praia, é um exemplo: jovens negros, em grupos de mais de duas pessoas, vindos de determinados pontos do Rio de Janeiro, imediatamente são considerados suspeitos.

Isso reforça um discurso que vem da década de 1980, quando começaram a chegar mais linhas de ônibus em Ipanema, quando se dizia: “esse lugar não pertence a eles; a praia não fica boa tão cheia”. E na minha pesquisa eu vi relatos desde a década de 20, início da década de 30, que já diziam a mesma coisa: “a praia é democrática, mas não vamos exagerar. A vocação da zona sul é ser elegante e está perdendo a elegância”.

O Rio tem muito esse estereótipo da simpatia, de ser gregário. A gente tem a imagem de que a praia é o símbolo do Rio, de que o carioca é democrático, se congraça com cores, idades, que todos convivem em harmonia. Mas quando a gente recorre à História vê que não é bem assim. E não precisa ir tão longe, é só olhar o que aconteceu há um mês que a gente percebe que o carioca é bem mais complexo do que isso.

A gente tem a imagem de que a praia é o símbolo do Rio, de que o carioca é democrático, que todos convivem em harmonia. Mas quando a gente recorre à História vê que não é bem assim.

É uma cidade dividida?
Eu não diria que é uma cidade partida. Não gosto dessa ideia. O carioca se define por essa tensão, também. Esses entrelaçamentos, esses encontros provocam situações de conflito constantes e isso é marcante na sociedade brasileira, mas aqui no Rio é muito mais marcante, pela proximidade das favelas, pela diferença muito clara da zona sul com relação às outras áreas da cidade, por causa da concentração de renda.

O carioca não é tão gregário assim?
Não é. Os limites estão muito claros onde as pessoas são bem-vindas e onde não são bem-vindas. Tem a parte romântica dessa divisão que são os postos da praia: o trecho que é mais frequentado por gays, pelos marombeiros. Mas não para aí. Uma coisa que me chama muito a atenção é que Copacabana recorrentemente é citada como praia mais suja. E eu tenho por hábito acompanhar os índices de contaminação das praias. E na grande maioria das vezes, Copacabana está própria para o banho; Ipanema, não. Leblon nunca está. E as pessoas “elegantes” vão ao Leblon e dizem que não frequentam Copacabana por causa da sujeira. Então é muito mais uma ideia de contágio social, porque Copacabana é uma praia muito mais popular em termos sociais. Transferem essa noção de contágio social para questão da contaminação da água. É o desconforto do contato com outras classes sociais. A mesma coisa acontece com São Conrado.

O que acontece lá?
Não é uma praia mais suja que o Leblon, mas está sempre vazia. Porque é uma praia identificada como a praia das pessoas da Rocinha. O crescimento da Rocinha estigmatizou o bairro de São Conrado. A praia do Pepino, menos. São Conrado saiu do mapa do carioca. Ele vai até a zona sul e depois Barra. Inclusive, os alugueis ficaram bem mais baratos por causa dessa proximidade.

 

copa

Ideia de ‘contágio social’ afasta banhistas de Copacabana. (Foto:Fabio Motta/Estadão)

 

Além do clima, que faz você sofrer até hoje, houve mais algum choque que você viveu como uma “paulistana no Rio”?
Me causou estranhamento esse sistema de classificação zona sul/zona norte. Em São Paulo existe esse sistema de classificação, mas não é assim tão binário. E é paradoxal, em certo sentido, porque aqui a gente vive muito mais misturado do que em São Paulo. Em São Paulo você pode passar uma vida sem conviver com pessoa que mora em outra região da cidade. Aqui a cidade é mais misturada, mas, até por ser tão misturada, as classificações têm que ser mais marcadas.

Me chamou muito a atenção o uso social da praia. Em que posto você vai? Eu ia onde estava mais vazio. E os meus amigos cariocas foram me ensinando essa geografia simbólica da praia, que você escolhe um pouco para saber quem você é.

Uma característica do Rio do estereótipo, que é o Rio da zona sul, é que você tem uma convivência heterogênea. Copacabana é o símbolo maior disso. Eu adoro: é a terra da gambiarra, dos puxadinhos. Essa heterogeneidade não se traduz nessa harmonia, nesse congraçamento, nessa democracia que faz parte da imagem do carioca e do Rio de Janeiro. As diferenças sociais ficam muito claras em função desse convívio.

Pessoas que vem de fora do Rio costumam reclamar muito do atendimento que se recebe aqui. O carioca está acostumado a ser maltratado na própria cidade?
Eu acho que sim, mas acho que é uma visão de quem vem de fora. O carioca não tem essa percepção. Eu estou aqui há mais de dez anos e sofro. Não esqueço que eu pedia para o motorista de ônibus: “por favor, pode parar aqui?”. Dava boa tarde. E ele nunca parava. E alguém gritava: “aí, motô… para aí”, ele parava. O carioca não se acha maltratado porque tem padrões de sociabilidade diferentes. É uma forma de se relacionar que tem a ver com a informalidade, tem a ver com essa relação tão intrincada entre pessoas de grupos sociais diferentes e que gera uma maleabilidade maior em determinadas formas de tratamento. Há uma informalidade maior, sim, que se reflete nos serviços. Irrita quem vem de fora, mas não necessariamente o carioca.

 O carioca não se acha maltratado porque tem padrões de sociabilidade diferentes. É uma forma de se relacionar que tem a ver com a informalidade

Você estudou a formação da zona sul, é isso?
No meu doutorado, eu falo sobre a invenção de Copacabana. Foi o primeiro bairro da zona sul que ganhou essa força. Foi o momento em que o Rio se virou para o mar, e como a praia virou o centro do prestígio. Porque não era assim. Houve campanhas para dizer que no mundo inteiro a praia era elegante, que a praia é chique. Essa campanha foi dos moradores, muito apoiados pelo mercado imobiliário, em parcerias pontuais com o governo. Era um movimento de valorização da praia que aconteceu no resto do mundo, mas não foi uma coisa espontânea. A gente pensa que o Rio tem vocação natural para a praia, e não foi assim. Foi uma construção possível de a gente acompanhar, que se dá no fim da década de 1920 e início da década de 1930.

 

COPA38

Anos de 1930: ir à praia passou a ser elegante. (Foto: Reprodução)

 

E como você começou a estudar o subúrbio?
Essa campanha de valorização da praia, via Copacabana, se dava por oposição ao subúrbio. Quando você cria uma identidade, cria ela em contraste a outra: “eu sou assim, porque eu não sou assim”. O tempo todo os moradores diziam: “nós não somos como o subúrbio. Somos melhores que o subúrbio”. O tempo todo o subúrbio foi o opositor simbólico. Agora, nessa minha atual pesquisa, eu quero entender que subúrbios são esses. São inúmeros bairros, um pedaço gigante da cidade, que obviamente não pode ser colocado sob uma mesma identidade. Tenho procurado entender que subúrbio é esse que, em grande medida, foi criado pela zona sul. O discurso da elegância de Copacabana acaba criando o estereótipo de subúrbio. Até então essa palavra era usada positivamente. Os moradores eram mais ligados à classe trabalhadora, e tinham até um certo orgulho de se dizerem suburbanos. Não era um demérito, como é hoje em dia. Aos poucos a palavra foi sendo associada a um repertório pejorativo e indigno de fazer parte da cidade maravilhosa. Eu estou tentando entender a transformação do sentido da palavra subúrbio, que em grande medida é feito pelos moradores de Copacabana, e depois Ipanema e Leblon, no processo de fixação de uma identidade elegante para essa parcela da cidade.

Mas hoje há um resgate desse subúrbio. Tem a Feira das Yabás, em Madureira, que atrai moradores de toda a cidade…
É, verdade. Tem o Trem do Samba, também, que vai até Oswaldo Cruz. Mas esse é um movimento de uns cinco anos para cá. O que eu tenho percebido – claro que os marcos são arbitrários – é que desde o anúncio de que a Olimpíada seria aqui começou-se a pensar muito a cidade. O Rio ficou muito tempo sem se pensar urbanisticamente. Ficou muito acomodado em determinado estereótipo. Foram muitas décadas de abandono. Os estudos sobre o Rio ganharam fôlego novo, a cidade vem tentando se reconhecer, se repensar, essas questões vão ficando mais flagrantes.

 

Domingo de sol forte e muito calor nos morros do Complexo do Alemão que esta dominado pela polícia desde do chamado dia D com a retomada do Estado no local que agora predomina a paz. NA foto, meninos soltando pipa no alto do morro proximo a estação do tel

‘O Rio tem relação de amor e ódio com a favela’. (Foto: Fabio Motta/Estadão)

 

Há ainda uma atenção maior para a ascensão da nova classe média. O rótulo é polêmico, mas vem provocando a necessidade de pensar a inserção de outros grupos sociais nos territórios e dinâmicas, que antes eram só das elites. A gente vem repensando o transporte, novas vias que ligam Barra com o subúrbio. Eu acho que o Rio vem num movimento de reconhecer, se repesquisar e isso na academia, mas também em termos culturais. As UPPs, com todos os problemas que enfrentam, e são muitos, fez com que as favelas assumissem um outro tipo de centralidade na cidade, que não é só a questão da pobreza violência. A reflexão sobre o subúrbio vem depois da reflexão sobre a favela. Ainda falta muito. A favela dá muito medo, mas há muito encantamento. O Rio tem essa relação de amor e ódio com a favela. Ela é um símbolo da cidade, se tem orgulho e se tem horror. Mas não dá para falar só da favela a vida toda.