O sarau de Chico Buarque no Bar Semente
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O sarau de Chico Buarque no Bar Semente

Cantor, afastado dos palcos desde 2012, dá canja. Imagens feitas por celular serão aproveitadas em documentário.

Clarissa Thomé

11 de fevereiro de 2015 | 18h47

A reserva feita em nome de Francisco Buarque e mais 11 não havia chamado a atenção do funcionário do Semente, um dos bares pioneiros do renascimento da Lapa, bairro boêmio na região central do Rio. A ficha caiu quando o próprio Chico pediu uma cerveja no balcão, enquanto os músicos do Semente Choro e Jazz passavam o som. Era só o começo. A noite terminaria de forma ainda mais surpreendente: quase um sarau, com Chico Buarque ao violão, o público a poucos centímetros, alguns sentados no chão. “Essa é de alto risco. Desculpem aí. É foda”, disse um descontraído Chico, antes de levar Carioca, canção de sua autoria.

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Descontraído, Chico dá canja no Bar Semente. (Foto: Eduardo Martino/Divulgação)

Há 17 anos, as noites de segunda-feira são do violonista Zé Paulo Becker e o Semente Choro e Jazz, dedicadas à música instrumental. Nesses dias, o bar vira ponto de encontro de artistas, que volta e meia dão canja. O guitarrista sul-africano Dave Matthews e o violoncelista Jacques Morelembaum estão entre os que já se apresentaram informalmente no bar. O cantor Marcos Sacramento e o violonista Yamandu Costa estão sempre na casa. Há três semanas, foi a vez de Ney Matogrosso.

Chico chegou sozinho. Depois, vieram os amigos – o compositor Carlinhos Vergueiro e o jornalista Rodrigo Paiva entre eles. O cantor deixou de lado a conversa e sentou-se de frente para o palco. Acompanhou as músicas, retribuiu o beijo que Sacramento lhe mandou, depois que este cantou Samba e Amor em homenagem ao visitante. Yamandu também deu canja.

Zé Paulo já havia deixado o palco, quando Chico se aproximou. “Eu quero cantar um pouco”. Foram três músicas: Aquela Mulher e Palavra de Mulher, além de Carioca. “Eu já estava lá fora e voltei correndo. Perguntei se ele queria que os músicos o acompanhassem, mas ele disse que preferia tocar sozinho. A sensação é de que ele estava se sentindo em casa. O Semente tem esse clima. As pessoas estão ali pela música”, disse Zé Paulo.

Marcos Sacramento resumiu a noite como “redentora”. “A gente se sente distante dos medalhões, do chamado mainstream, e o Chico veio lembrar que essas diferenças não existem. Ele é genial até nisso. Foi uma noite de reconciliação do primeiro time com a música contemporânea”, disse Sacramento.

A jornalista Patrícia Terra, que está preparando o documentário Semente da Música Brasileira, em parceria com Cavi Borges e o Canal Brasil, sobre a geração de músicos que surgiu com o bar, aproveitará os registros feitos pelo celular. “As baterias já estavam caindo, foi tudo captado de improviso. Mas essa é a cara do Semente – a imprevisibilidade.”