O silêncio de Del Nero e o barulho de Eurico
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O silêncio de Del Nero e o barulho de Eurico

Presidente da CBF se cala diante das turbulências, enquanto que o vascaíno diz o que pensa em alto e bom som

Marcio Dolzan

30 Outubro 2015 | 16h17

Dois poderosos personagens da cartolagem brasileira estiveram em evidência de maneira muito distinta nas duas últimas quintas-feiras. Marco Polo Del Nero, presidente da CBF, por se recusar a falar. Eurico Miranda, presidente do Vasco, por falar à vontade.

Primeiro foi Del Nero. Tendo o técnico Dunga a sua direita e o coordenador geral de seleções Gilmar Rinaldi a sua esquerda, o presidente da CBF passou os trinta minutos da convocação da seleção brasileira quieto, às vezes demonstrando interesse, outras vezes parecendo entediado. Na única vez em que um repórter ousou lhe fazer uma pergunta, acabou cortado miseravelmente pela assessoria de imprensa.

Del Nero, um homem que há até pouco tempo respondia mesmo as perguntas mais espinhosas com elogiável cordialidade, hoje não dá declarações públicas. Se há reunião na CBF, quem desce para falar com a imprensa é o secretário-geral da entidade, Walter Feldman. Se há um questionamento simples – “o que Marco Polo Del Nero pensa da venda de bebidas alcoólicas nos estádios?” –, a assessoria da entidade informa que “o presidente não pretende se manifestar sobre esse assunto no momento”.

Eurico Miranda foi ao STJD se defender, mas voltou a atacar (Foto: Wilton Junior/Estadão)

Eurico Miranda foi ao STJD se defender, mas voltou a atacar (Foto: Wilton Junior/Estadão)

Já Eurico Miranda fala à vontade. Não faz muito, convocou a imprensa para atacar a arbitragem, a Comissão de Arbitragem da CBF, o presidente (atualmente licenciado) da federação catarinense e um dos vices da CBF, Delfim Peixoto, e a própria entidade que “cuida” do futebol nacional. Em relação a Del Nero, falou em “guerra sem quartel”.

Por conta disso, foi denunciado pela procuradoria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) e correu o risco de ser suspenso por até três anos, além da possibilidade de multa que poderia chegar a R$ 100 mil.

O julgamento foi na quinta-feira seguinte à da convocação. Eurico, acompanhado de assessores, do advogado do Vasco e de meia dúzia de seguranças, foi se defender. E, tal qual um time dirigido por Pep Guardiola, se defendeu atacando.

“Eu sou do tempo do STJD da Rua da Alfândega (parêntese: hoje o tribunal está situado no sugestivo endereço da Rua da Ajuda). Muitos aqui não eram nascidos ou estavam ainda na puberdade e eu já estava militando no desporto”, disse o cartola.

“Eu não ofendi ninguém. Se prestarem atenção, eu disse claramente: a culpa não é dos árbitros, os árbitros são humanos. A culpa é da comissão de arbitragem, que demonstrou e tem demonstrado a sua incompetência.”

Sobre o presidente da CBF e o primeiro na linha sucessória, insistiu: “Nada do que eu disse em relação ao Marco Polo Del Nero, nada do que eu disse em relação ao Delfim, nada, eu não disse nenhuma inverdade. Tudo está provado.”

Eurico foi além. “O seu Delfim Peixoto, lá de Santa Catarina, disse claramente que estava pronto pra assumir o lugar do seu Marco Polo Del Nero. E até hoje o seu Marco Polo não saiu pra não passar (o cargo), porque o seu Delfim Peixoto é o vice-presidente mais velho e, estatutariamente, é ele quem assume. E o que começou a acontecer? Surgiu, do nada, de Santa Catarina, se criar uma liga, uma liga de tanta importância que tem quatro clubes de Santa Catarina. Isso foi para ajudar os clubes ou foi para confrontar a CBF?”, indagou o cartola vascaíno, com dedo em riste, citando a criação da Liga Sul-Minas-Rio, a qual é ferrenho opositor.

“O senhor Marco Polo Del Nero está fragilizado, procura se encolher, procura não tomar decisões. Eu, absolutamente, não tenho nada com isso, desde que ele não prejudique o Vasco.”

Eurico Miranda discursou por cerca de 15 minutos. Os auditores do STJD ouviram com especial atenção. No fim, optaram por apenas advertir o dirigente e ainda pediram abertura de inquérito para analisar a escolha dos árbitros para as partidas do Brasileirão.

Se o julgamento de Eurico tivesse que ser reduzido aos 140 caracteres do Twitter, o meme “o jogo virou, não é mesmo, kiridinha?” seria perfeito.

Del Nero sofre pressão na CBF, mas opta pelo silêncio (Foto: Fabio Motta/Estadão)

Del Nero sofre pressão na CBF, mas opta pelo silêncio (Foto: Fabio Motta/Estadão)