Para PMDB do Rio, eleição de 2016 será ‘dez vezes mais difícil’
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Para PMDB do Rio, eleição de 2016 será ‘dez vezes mais difícil’

Acusado de agredir ex-mulher, Pedro Paulo aposta na avaliação positiva do prefeito Eduardo Paes para chegar ao segundo turno

Luciana Nunes Leal

24 de fevereiro de 2016 | 16h10

Ao analisar os obstáculos que serão enfrentados pelo secretário de Coordenação de Governo do Rio, Pedro Paulo Carvalho, economista carioca de 43 anos, na disputa pela sucessão do prefeito Eduardo Paes (PMDB), um integrante da cúpula da campanha comentou, há pouco menos de um mês: “Vai ser dez vezes mais difícil do que a gente imaginava”. A razão da preocupação são as denúncias de agressões físicas e ameaças registradas na polícia pela ex-mulher de Pedro Paulo, Alexandra Marcondes, em 2008 e em 2010, quando o casal se separou. O caso tornou-se público no fim do ano passado, mas Paes defendeu o afilhado político e insistiu na candidatura, agora confirmada pelo PMDB-RJ.

O desafio inicial de tornar Pedro Paulo conhecido do eleitorado agora se transformou em esforço para tentar reduzir o enorme desgaste causado pela imagem de agressor que começa a ser difundida principalmente entre as mulheres. Dois grupos foram criados no Facebook, Pedro Paulo Nunca e Pedro Paulo Não. No carnaval, foliãs usaram fantasias como “vítimas de Pedro Paulo” e “boletim de ocorrência”.

No início de fevereiro, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) abertura de inquérito contra Pedro Paulo por lesão corporal. A decisão caberá ao ministro Luiz Fux, que é do Rio de Janeiro e foi indicado em 2011 pela presidente Dilma Rousseff, com apoio do então governador Sérgio Cabral (PMDB).

WJPMDB5 - RJ - 23/11/2015 - CONVENÇÃO/PMDB - POLÍTICA OE - O prefeito do Rio, Eduardo Paes, o pré-candidato do PMDB a prefeitura do Rio, Pedro Paulo, durante a Convenção Estadual do PMDB-RJ realizada na sede da entidade, no centro do Rio. Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Pedro Paulo aposta em Paes para vencer. Foto: WILTON JUNIOR/ESTADÃO

O caso chegou ao Supremo porque Pedro Paulo é deputado federal licenciado. Na semana passada, ele repetiu manobra feita em dezembro, foi exonerado da secretaria e passou dois dias na Câmara, em Brasília, para votar na reeleição do líder do PMDB, Leonardo Picciani, filho do presidente do PMDB-RJ, Leonardo Picciani. Mesmo no cargo de secretário, Pedro Paulo tem foro privilegiado e será investigado no Supremo, se Fux aceitar o pedido do procurador-geral.

A primeira notícia sobre a agressão foi revelada pela revista “Veja” em outubro passado. Informava que, em fevereiro de 2010, Alexandra Marcondes denunciou à polícia ter sido agredida por Pedro Paulo durante uma briga do casal, depois que descobriu ter sido traída. Um exame de corpo de delito concluiu que Alexandra levou socos e chutes e foi agarrada pelo pescoço.

Pedro Paulo disse ao jornal “Folha de S. Paulo” que a agressão foi um episódio único. No entanto, dois outros casos foram revelados em seguida. Em agosto de 2010, já separada, Alexandra denunciou à polícia que Pedro Paulo a perseguia e havia ameaçado “sumir” com a filha do casal. A primeira denúncia de Alexandra aconteceu em 26 de dezembro de 2008, em São Paulo, onde ela disse ter sido agredida depois de uma briga dentro de um carro.

Alexandra inicialmente disse que havia mentido à polícia, depois voltou atrás e, em entrevista ao lado de Pedro Paulo, disse que foram “tristes episódios” que considerava encerrados. Na defesa encaminhada ao Ministério Público, Pedro Paulo apresentou nova versão e disse ter reagido a agressões de Alexandra. A ex-mulher passou a falar em “agressões recíprocas”. “Esse giro radical precisa ser bem esclarecido”, disse Rodrigo Janot no pedido encaminhado ao STF.

Pedro Paulo contratou o ex-procurador-geral da República Aristides Junqueira para defendê-lo em Brasília. Procurado pelo Estado, o criminalista respondeu que não falaria sobre o assunto. Pedro Paulo também não atendeu à reportagem. A assessoria do secretário enviou apenas uma nota em que Pedro Paulo “reitera que está à disposição da Procuradoria Geral da República e do Supremo Tribunal Federal para prestar todos os esclarecimentos e colaborar com o inquérito”.

A versão de que Pedro Paulo agrediu Alexandra para se defender era  sustentada nos bastidores por aliados do secretário com cautela. O objetivo era evitar passar a impressão de que o pré-candidato tentava transformar a vítima em vilã.

No núcleo de marketing da pré-campanha de Pedro Paulo, a avaliação é que o “estrago” na classe média causado pelas agressões dificilmente será contornado. A estratégia será voltar os esforços para o eleitorado de baixa renda e escolaridade da periferia, onde Eduardo Paes é forte e garantiu as duas eleições do atual prefeito. Pedro Paulo será apresentado como o braço-direito de Paes, responsável, com o prefeito, pelas obras de mobilidade e revitalização que beneficiaram a população pobre, como as vias expressas de ônibus e programas de reurbanização das favelas.

“A abertura de inquérito (se o Supremo aprovar o pedido do procurador-geral) será positiva, vai permitir que Pedro Paulo faça os esclarecimentos e prove que não é uma pessoa violenta, agressiva. O fato tem gravidade, mas essa não é a conduta dele. Pedro Paulo vive bem com a atual mulher, tem três filhas, é bom pai e bom filho. Ele é o político mais qualificado para dar continuidade à gestão exemplar de Eduardo Paes”, elogia Jorge Picciani.

Futuro adversário de Pedro Paulo na disputa pela prefeitura, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) diz que, na campanha, Pedro Paulo “terá que se explicar não para um candidato ou candidata, mas para as mulheres”. “O problema dele será dialogar com as mulheres do Rio de Janeiro, explicar como um agressor contumaz, o que já é gravíssimo, ainda mente sobre o que ocorreu e depois tenta criminalizar a mulher, o que é muito comum no Brasil”.

Além de Freixo, alguns prováveis adversários do peemedebista já se movimentam. Um será o senador Marcelo Crivella (do PRB e migrando para o PSB), que tem base eleitoral principalmente entre fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus. Outro será o deputado Alessandro Molon, que trocou o PT pela Rede, fundada por Marina Silva. Haverá ainda o ex-secretário estadual de Transportes Carlos Roberto Osório, deputado estadual que deixou o PMDB pelo PSDB. O PSD estuda lançar o deputado Indio da Costa, candidato a vice-presidente da República na chapa do tucano José Serra, em 2010. Crivella é tratado na cúpula peemedebista como o candidato a ser batido primeiro. O comando do PMDB considera baixa a possibilidade de o senador e Pedro Paulo iriam para o segundo turno. Os dois têm eleitorados semelhantes, nas áreas mais pobres da cidade.

Além dos esforços para enfrentar a resistência a Pedro Paulo por causa das agressões, a equipe de campanha e o PMDB também consideram fundamental para um bom resultado eleitoral o desempenho de Eduardo Paes. “Eduardo Paes é a variável número 1”, define um aliado. Para isso, será importante que o prefeito melhore a avaliação positiva, que já esteve perto dos 40% de bom e ótimo, há um ano, e caiu para 27%, segundo pesquisa recente encomendada pelo PMDB. A avaliação regular ficou em 48% e ruim e péssimo chegou a 25%.

Aliados agora apostam na entrega de novas obras, como o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) e novas vias expressas , além da realização da Olimpíad, para alavancar a popularidade do prefeito, de quem Pedro Paulo é totalmente dependente. A pesquisa do PMDB apontou como principais pontos fracos de Paes temas que se confundem com as atribuições do Estado. Em primeiro lugar foi citada a saúde e em segundo, segurança.

Desde o início do segundo mandato de Paes, Pedro Paulo passou assumir funções estratégicas no governo. Foi chefe da Casa Civil e ocupou a Secretaria de Coordenação de Governo, criada especialmente para ele, em janeiro do ano passado. O secretário saiu de cena por algumas semanas quando vieram à tona as agressões, mas voltou durante a crise da saúde do Estado, em dezembro. Eduardo Paes encarregou Pedro Paulo de coordenar todas as ações de ajuda do município ao Estado e de acompanhar dia a dia a municipalização de dois hospitais estaduais.

 

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