Parque ecológico no alto do Morro do Vidigal é premiado nos EUA
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Parque ecológico no alto do Morro do Vidigal é premiado nos EUA

Criado por moradores da favela junto com um arquiteto formado em Harvard, Sitiê foi aberto onde antes era lixão

Roberta Pennafort

08 Abril 2015 | 16h48

Parque será premiado sábado nos EUA (Foto: Fabio Motta/Estadão)

Parque virou estudo de caso nos EUA (Foto: Fabio Motta/Estadão)

 

No princípio, era o lixo. Mais de 25 anos de detritos jogados ao ar livre no alto do morro do Vidigal, na zona sul do Rio. Para os moradores da favela, era natural abandonar ali sacolas com restos de comida, eletrodomésticos, móveis quebrados e até corpos de animais mortos. Para Mauro Quintanilla, vizinho do lixão, era deprimente e humilhante.

Da tristeza à reação, o músico, nascido no morro e então com 44 anos, contou com a ajuda de poucos amigos. Sob a zombaria de parentes, que não acreditavam ser possível reverter aquele cenário, eles se puseram a retirar com as próprias mãos o que a comunidade insistia em repor no dia seguinte.

Em 2010, 16 toneladas e cinco anos depois, a área estava limpa, pronta para ser batizada de Parque Ecológico Sitiê. Num espaço voltado à contemplação e ao lazer, foi criada uma horta da qual já saíram 700 quilos de legumes, verduras, temperos e frutas, doados à comunidade. “Não tivemos ajuda de governo. Minha família dizia que eu era maluco, mas acabamos atraindo voluntários, gente daqui e turistas estrangeiros. Depois consegui mudas do Jardim Botânico e fiz o paisagismo, tudo intuitivamente”, conta Quintanilla, cercado de flores.

Da via principal da favela, chega-se aos 8,5 mil metros quadrados do Sitiê passando por uma escada de 150 degraus feitos de pneus reciclados e unidos por entulho e cimento. No centro do parque foi erguida uma muralha de 386 pneus e 23 toneladas, que ajuda a conter a água das chuvas, temida por provocar deslizamentos de terra, e que foi pensada também para ser um ponto de encontro dos moradores e palco de atividades culturais.

Poucos metros adiante, num ponto que, no passado, serviu de rota de fuga para traficantes armados, está um mirante do qual se admira a mais bela vista das praias de Ipanema e do Leblon.

Mais do que uma atração numa zona carente de áreas de lazer, o Sitiê, por aliar engajamento popular e técnicas inovadoras, está atraindo olhares de fora. Já foi visitado por especialistas vindos de parques icônicos, como o Central Park e o Brooklyn Bridge Park, ambos em Nova York, que saíram entusiasmados.

A fama do Sitiê – junção da palavra sítio com o pássaro tiê, inventada por Quintanilla – não vem só do esforço pessoal de seus criadores. Deve-se muito à chegada à favela do arquiteto Pedro Henrique de Cristo. Em 2012, o jovem paraibano, aos 29 anos recém-pós-graduado na universidade de Harvard, uma das mais conceituadas do mundo, conheceu a iniciativa e se juntou a ela.

O encontro se deu durante a conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável Rio+20, e impactou o Vidigal, que ganharia um entusiasta e novo morador, a mulher do arquiteto, a norte-americana Caroline Shannon de Cristo, que também se mudou para a favela e passou a trabalhar no Sitiê, e a trajetória de Quintanilla e seus companheiros, cujo sonho se transformou em algo muito maior do que aquilo que vislumbraram.

No próximo fim de semana, o projeto será reconhecido em Detroit, nos Estados Unidos: receberá um dos mais respeitados prêmios de arquitetura, urbanismo e design do mundo, o SEED (Design socioeconômico e ambiental, na sigla em inglês), que valida iniciativas que combinam design arrojado e interesse público. Em Harvard, virou estudo de caso.

A área do Sitiê era um sítio na infância de Quintanilla, mas foi degradada conforme o morro, ocupado por barracos desde a década de 1940, se adensou. Hoje o Vidigal tem, pela contagem oficial, cerca de 12 mil habitantes.

Prestes a completar dez anos, a iniciativa ganha fôlego não só com a validação internacional, mas também com o projeto do Instituto Sitiê de Meio Ambiente, Artes e Tecnologia, que foi desenvolvido pelo escritório de Cristo, instalado em sua casa no Vidigal. O estúdio +D, que tem como slogan “design com propósito”, imaginou uma praça para convivência e prática de esportes, ligada ao Sitiê por meio de uma escadaria adaptada à topografia, um centro de inovação, com biblioteca e aulas de música e artes, e um restaurante, em que os clientes buscariam seus ingredientes na horta do parque. A ideia é que tudo fique pronto até 2016.

 

O casal Cristo e Mauro Quintanilla (Foto: Fabio Motta/Estadão)

No mirante que era passagem de traficantes, o casal Cristo e, à direita, Mauro Quintanilla (Foto: Fabio Motta/Estadão)

 

O instituto seria todo pago com recursos privados – já existem investidores interessados. O projeto da praça pública, com área para prática de ioga e leitura e escorrega gigante para as crianças, já foi aprovado em conversas com a Prefeitura.

A empolgação é geral: “Design com função social tem que ser excelente. Eu poderia estar ganhando muito dinheiro num escritório, projetando hotéis com materiais luxuosos, mas qual seria o significado disso para o desenvolvimento da arquitetura? Não tenho a favela como fetiche, acredito que dela saem soluções inovadoras. Estar aqui foi a melhor coisa que já me aconteceu”, diz Cristo.

Não por acaso, ele se fixou no morro no ano da instalação da Unidade de Polícia Pacificadora, que acabou com o desfile de criminosos armados de fuzis pelas ruas e os tiroteios constantes, e, assim, fez crescer o número de novos empreendimentos, como bares e hostels, e o fluxo de turistas. A UPP já viu dias melhores, mas segue permitindo aos moradores projetos como este.

A ocupação dos espaços públicos, em especial pelas crianças, é um antídoto contra a violência, acredita o arquiteto, que sonha com o título de “primeira favela integrada e sustentável do mundo” para o Vidigal. “Se os moradores fossem ricos, isso queria seria Mônaco. Estamos do lado do metro quadrado mais caro do Brasil (o bairro do Leblon). Não tem por que não acreditar no potencial do Vidigal como hub (polo) de inovação”.

 

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