PMDB-RJ prepara a volta de Sérgio Cabral à cena política
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PMDB-RJ prepara a volta de Sérgio Cabral à cena política

Ex-governador monta escritório, atua nos bastidores e resiste à ideia de disputar a prefeitura em 2016; partido quer Cabral à frente de movimento por mudança no modelo de partilha do pré-sal

Luciana Nunes Leal

20 de fevereiro de 2015 | 18h25

Depois de oito anos de presença no sambódromo do Rio como anfitrião do camarote oficial do Estado, o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) recusou convites para assistir ao desfile e ficou longe da avenida. Não é visto em público desde a posse do sucessor e companheiro de partido, Luiz Fernando Pezão, em 1º de janeiro. Faltou até à solenidade de posse dos secretários estaduais, apesar de um deles, titular da pasta de Esportes, ser o filho Marco Antônio Cabral, de 23 anos.

As ausências, no entanto, não significam distância da política. Embora tenha deixado o governo em abril do ano passado, desgastado e com baixíssima popularidade, Cabral continua a ser o mais importante líder do PMDB do Rio de Janeiro. É o conciliador das divergências internas e atua para reconstruir as pontes entre o PMDB nacional e o governo, que entraram em conflito durante a formação do primeiro escalão, agravado com a disputa pela presidência da Câmara, em que saiu vitorioso o peemedebista Eduardo Cunha (RJ).

Cabral também é consultado com frequência sobre os rumos do governo do Estado e fala várias vezes por dia com Pezão. A influência do ex-governador é tamanha que, em piada interna, funcionários do Palácio Guanabara, sede do governo, apelidaram Pezão de “01” e Cabral de “001”.

Os aliados destacam, porém, que Cabral opina porque é procurado com insistência por ex-colegas que continuam no governo e evita intromissões em temas sobre os quais não é questionado.

Por causa do bom trânsito com os líderes peemedebistas e de outros partidos, Cabral tem sido citado como possível candidato à prefeitura do Rio em 2016. Embora não seja entusiasta da ideia, Cabral seria um nome de união do partido, hoje dividido entre dois pretendentes, o supersecretário municipal de Coordenação de Governo, Pedro Paulo, preferido do prefeito Eduardo Paes, e o deputado Leonardo Picciani, filho do presidente do PMDB-RJ e da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani.

Leonardo acaba de ser eleito líder do PMDB na Câmara, em substituição a Eduardo Cunha, com a decisiva colaboração de Cabral, que buscou apoio de peemedebistas influentes como o senador e presidente do partido, Valdir Raupp (RO), e o ex-senador José Sarney (MA).

Pela influência no governo do Estado, Cabral ganhou apelido de

Pela influência no governo do Estado, Cabral ganhou apelido de “001” Foto: Fábio Motta / Estadão

“As condições políticas é que vão indicar. Se Cabral achar que precisa manter o PMDB unido, poderá ser candidato, mas dentro de um processo político. Não é uma ambição pessoal”, diz Jorge Picciani.

A distância de eventos públicos faz parte dos planos de Cabral para o futuro. Nas palavras de um aliado, o ex-governador quer “dar uma esfriada” e começar um processo de recuperação da imagem e reabilitação para futuras disputas.

Um dos caminhos para a volta de Cabral ao cenário político deverá ser a campanha do PMDB fluminense pela retomada da discussão sobre o modelo de exploração do petróleo na camada de pré-sal. Parlamentares do Rio, com apoio de Eduardo Cunha, se articulam para protestar contra o regime de partilha e a regra que garante à Petrobrás presença na exploração de todos os campos do pré-sal, com participação mínima de 30%.

A mobilização pela revisão do modelo de partilha acontece no momento em que o Rio de Janeiro sofre com a retração da atividade petroleira, o que, em 2015, levará a uma perda de mais de R$ 2 bilhões em royalties do petróleo. O governo previu arrecadar R$ 9 bilhões e não chegará aos R$ 7 bilhões, segundo cálculos da Secretaria de Fazenda do Estado.

Quando o modelo estava em discussão no Congresso, Cabral liderou movimento dos Estados produtores contra o regime de partilha, que acabou implementado. “Até agora Sérgio esteve envolvido em assuntos internos do partido, da política. A exploração do petróleo é um tema da sociedade e Cabral pode estar nesta liderança”, diz Jorge Picciani.

Cabral costuma receber políticos no escritório que alugou no Leblon (zona sul), a poucas quadras de seu apartamento, no mesmo bairro, onde, no segundo semestre de 2013, grupos de manifestantes acamparam durante mais de um mês para pedir a saída do governador.

Àquela altura, os episódios controversos da gestão de Cabral se acumulavam. Dos altos custos da reforma do Maracanã à amizade com os empresários Fernando Cavendish, da construtora Delta, e Eike Batista, passando pelo uso de helicóptero do governo para levar a família, a babá e o cachorro para a casa de praia em Mangaratiba e as suntuosas viagens à Europa.

Em julho de 2013, quando todos os governantes perderam popularidade, durante a onda de protestos, o Datafolha apontou queda de trinta pontos na aprovação de Cabral, de 55%, em novembro de 2011, para 25%. Em dezembro de 2013, o Ibope apontou apenas 18% de “bom e ótimo” para o governador fluminense.

“Sérgio é nosso diamante. Pode estar em pedaços, mas, quando unir as partes, será nossa pedra preciosa”, elogia Paulo Melo, ex-presidente da Assembleia Legislativa e hoje secretário de Governo do Estado. No fim do ano passado, foi Cabral quem serenou os ânimos na disputa entre Melo e Picciani pela presidência da Assembleia. “Picciani não é um inimigo, é um companheiro de partido, mas ficam feridas. Ninguém foi mais importante que o Sérgio, que me deu sempre uma palavra de carinho, de reconhecimento”, diz Melo.

O ex-presidente da Assembleia não acredita que Cabral dispute a prefeitura e aposta em uma candidatura em 2018 ao Senado ou ao governo do Estado, a depender também do futuro de Eduardo Paes.
Aliado e amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Cabral trabalhou pela eleição de Dilma Rousseff em 2010, mas distanciou-se da petista na disputa presidencial de 2014, quando declarou neutralidade. Eleito deputado, Marco Antônio, filho de Cabral, fez campanha para Aécio Neves (PSDB) e integrou o movimento Aezão, criado por Picciani para propagar o voto conjunto no tucano e em Pezão.

Passada a eleição de 2014, Cabral voltou às boas relações com Lula e Dilma. Nos primeiros dias do ano, esteve com Lula em Angra dos Reis, onde o petista passou o réveillon, na casa de um empresário amigo. Na semana passada, Cabral participou de um jantar com o ex-presidente na casa de Eduardo Paes, onde estavam também Pezão e o secretário Pedro Paulo. O encontro foi um primeiro passo de Lula para diminuir a tensão entre PMDB e o governo Dilma.

No aniversário de Cabral, em 27 de janeiro, foi a presidente quem ligou para cumprimentar o ex-governador pelos 52 anos. Segundo um amigo, eles conversaram muito sobre assuntos gerais e pouco sobre política.
Por mais que tenha investido em publicidade para melhorar a imagem, Cabral não conseguiu evitar a repulsa da população. No entanto, elegeu o sucessor no ano passado, em uma disputa difícil que chegou ao segundo turno. O ex-governador pouco apareceu na campanha, mas participou diretamente da estratégia.

Os gastos com propaganda do governo Cabral são alvo de investigação do Tribunal de Contas do Estado (TCE), a pedido do conselheiro José Graciosa. Reportagem publicada pelo Estado em janeiro passado mostra que a gestão Cabral / Pezão, entre 2007 e 2014, gastou 52% a mais em publicidade que a governadora Rosinha Garotinho (PR), entre 2003 e 2006. Cabral gastou em média R$ 194,9 milhões ao ano e Rosinha, R$ 127,8 milhões anuais.
Graciosa questiona uma série de aditivos nos contratos de publicidade de Cabral, cada um no valor de R$ 6,250 milhões. O ex-governador não quis comentar a investigação do TCE e também não atendeu ao pedido de entrevista do Estado. O governo estadual disse não ter recebido qualquer notificação do tribunal. Informou que “os investimentos em comunicação espelham os valores dos contratos regularmente licitados”. Segundo o governo, os aditivos “não significam aumento do ‘valor’ dos serviços e estão relacionados a necessidade de aumento na quantidade dos serviços”.

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