Prefeitura fecha gatil, ‘exila’ gatos e causa protesto de ONG no Rio
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Prefeitura fecha gatil, ‘exila’ gatos e causa protesto de ONG no Rio

Para fugir do barulho da rua e dos fogos no carnaval, bichos foram transferidos; são 530 animais em abrigo na zona oeste da capital

Clarissa Thomé

21 Maio 2015 | 13h54

Construído ao custo de R$ 400 mil para abrigar gatos abandonados, o Gatil São Francisco de Assis, no Parque Noronha Santos, no Centro, foi desativado, menos de três anos depois da inauguração. Desde fevereiro, os felinos foram retirados do local, e o mato toma conta da área. Os bichos foram transferidos para a Fazenda Modelo, em Guaratiba, na distante zona oeste. Protetores e entidades de defesa dos animais dizem que o local também não é adequado.

Há décadas, o Campo de Santana é conhecido como ponto de abandono de gatos. Voluntários costumam passar por ali e alimentá-los diariamente. Para resolver a questão, criou-se o gatil, com capacidade para 300 animais divididos em 20 abrigos, ambulatório, posto de permanente de adoção e centro de esterilização gratuita. Também foram levados para lá gatos abandonados na sede administrativa da prefeitura do Rio.

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Abandono de gatos : problema recorrente (Foto: Wilton Júnior /Estadão – Arquivo)

 

Mas desde o início a escolha do ponto foi criticada. O São Francisco de Assis fica na Avenida Presidente Vargas, uma das mais movimentadas da cidade. Para piorar a situação, é do gatil que a Liga das Escolas de Samba (Liesa) solta os fogos que anunciam a entrada de cada escola na Avenida Marquês de Sapucaí durante o carnaval. Nos últimos anos, os bichos foram retirados e devolvidos depois da festa.

“O gatil ali foi um desastre desde o início. Fica de frente para o Sambódromo, sob um viaduto na Presidente Vargas. O trânsito é muito intenso, o local é barulhento. Vários gatos morreram atropelados. E ainda tem a situação absurda dos fogos no carnaval. Entramos com ação tentamos proibir a queima de fogos ali e a transferência dos animais, mas o juiz não concedeu a liminar. E toda vez que são transferidos, sempre há perda de vários gatos”, afirmou a advogada Cristina Palmer, vice-presidente da ONG Oito Vidas.

Os animais estão na Fazenda Modelo, onde funciona outro gatil da prefeitura. Além dos gatos que viviam no São Francisco de Assis, foram levados para lá outros 130 retirados de um apartamento na Tijuca, em novembro. São 530 animais, ao todo. “Os gatos não estão abrigados. Foram jogados lá. Dormem ao relento. Fizemos uma reclamação e arrumaram três caixas d’água pequenas para eles se protegerem. Muitos já se perderam”, afirma Andréa Lambert, presidente da Associação Nacional de Implementação dos Direitos dos Animais (Anida).

 

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Felinos foram do Campo de Santana para o gatil (Foto: Wilton Júnior/Estadão-Arquivo)

 

Andréa também se queixa que os gatos não têm acompanhamento veterinário. “No São Francisco de Assis, apesar de não ser o local ideal, as protetoras iam diariamente. Levavam até para clínica particular os gatos doentes. Mas elas não têm como ir a Guaratiba. Na Fazenda Modelo é mais difícil fiscalizar”, diz Andréa. 

A intenção inicial de retirar os felinos do Campo de Santana também falhou. Os animais voltaram a ser abandonados lá. “Já tem mais de cem gatos. Não adianta simplesmente retirar os animais e não conscientizar a população”, afirma Andréa.

Em nota, a prefeitura confirmou que o gatil São Francisco de Assis foi desativado, mas não respondeu às perguntas sobre os gastos com a construção nem explicou por que o abrigo foi instalado em local inadequado.

“A Secretaria Especial de Promoção e Defesa dos Animais estuda implantar no local um centro de castração para os animais. Durante o carnaval, os gatos foram transferidos para a Fazenda Modelo, em Guaratiba, e permanecem no local, que é aberto à visitação pública”, diz o texto.

A prefeitura informou ainda que os animais são acompanhados por dois veterinários. A nota não faz menção à denúncia de que os animais estão mal abrigados.