Pastoral Carcerária critica presídios do Rio por recusar doação
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Pastoral Carcerária critica presídios do Rio por recusar doação

Coletivo de mulheres faz campanha para angariar absorventes íntimos para duas mil detentas; Estado alega já dispor de material

Roberta Pennafort

15 Agosto 2015 | 20h05

Solidário à população carcerária feminina do Rio, um coletivo de mulheres está angariando desde o mês passado absorventes íntimos para doação à Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) e repasse às presas. Mas o órgão recusou a oferta, alegando que já dispõe de material suficiente para atendê-las. A negativa surpreendeu a coordenadora nacional da Pastoral Carcerária para a questão da mulher, a irmã Petra Pfaller, que visitou duas unidades cariocas recentemente e verificou a insuficiência de absorventes.

“Não entendo essa recusa. As presas recebem absorvente, mas é muito pouco. Um pacote por mês não é o bastante. E há tipos diferentes para cada idade, cada necessidade, e essa diferenciação não é feita. As mulheres que não têm família precisam ainda mais, porque não recebem a quantidade extra que chega nos dias de visita”, explicou a religiosa, na Pastoral Carcerária há 20 anos. No mês passado, ela esteve na penitenciária Nelson Hungria, que abriga 576 presas, e na Cadeia Pública Joaquim Ferreira de Souza, onde ficam 499. O Estado tem 2.091 detentas.

 

Parte dos absorventes doados para as presas (Foto: Bel Junqueira)

Parte dos absorventes doados para as presas (Foto: Bel Junqueira)

 

O coletivo Saaanta Mãe, que se reuniu no Facebook e congrega 1.490 mulheres, começou a fazer a arrecadação depois do lançamento do livro Presos que menstruam (Editora Record), da jornalista Nana Queiroz, sobre o tratamento desumano dispensado às detentas no Brasil. No livro, a autora relata que, na falta de absorvente, as detentas inserem miolo de pão na vagina para conter o fluxo menstrual.

O coletivo montou pontos de coleta, entre universidades, escolas e residências, que já somam 47. No evento criado no Facebook, 9,4 mil pessoas já confirmaram presença – a mobilização iria até o fim desse mês, mas por ora está suspensa. Outras campanhas de arrecadação estão em andamento em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

“Nos outros estados está indo bem. Não temos ideia da razão da recusa no Rio, mas não perdemos as esperanças: acho que a Seap pode rever essa posição. Se isso não acontecer, doaremos para outro órgão”, contou a fotógrafa Bel Junqueira. Uma das organizadoras da mobilização, ela recebeu denúncias de ex-detentas dando conta de desvios de absorventes por parte de funcionárias.

A Seap nega que falte absorvente nos presídios e informou que adquiriu 37.500 pacotes, tendo outros 10.340 em estoque. No Diário Oficial, a compra dos absorventes foi publicada no dia 28 de julho, ao custo de R$ 58,5 mil. Alegando o risco de perda do prazo de validade dos produtos, a secretaria orientou as doadoras que se direcionassem a outros órgãos que atendam mulheres e que estejam precisando. Citou como exemplos o Degase (departamento que guarda menores de idade), abrigos e hospitais.

“Não desdenhei, é uma campanha bonita, mas seria um crime receber um material doado com tanto carinho sem ter lugar para estocar. Iria estragar. Se fosse março ou abril, ok, mas hoje não estamos precisando”, afirmou o secretário, coronel Erir Ribeiro da Costa Filho, que não chegou a se informar sobre a validade do que foi reunido até aqui – segundo as organizadoras, os pacotes só expiram em 2017  (o número total deixado nos os pontos de coleta ainda não foi contabilizado).

Levando-se em consideração que a menstruação dura, em média, cinco dias, e que os ginecologistas recomendam a troca de absorvente a cada quatro horas, no máximo, a quantidade estocada não cobriria tanto tempo. A conta é estimada, porque os ciclos são variáveis e também porque nos presídios há gestantes e mulheres já na menopausa (que não menstruam). O secretário de Administração Penitenciária afastou qualquer possibilidade de desvios: “Eu vou a todas as reuniões com conselhos e Secretaria de Direitos Humanos e nunca ouvi falar disso”.

A irmã Petra rebateu a informação sobre a falta de necessidade das doações dada por Costa Filho, que está no cargo há cinco meses e já foi comandante geral da Polícia Militar do Rio: “Esse é um problema do Brasil inteiro, que aparentemente só o Rio não tem”, ironizou. “Se a Seap do Rio não quer, peço que sejam enviados para os outros estados, porque todos precisam. O sistema penitenciário é masculino, militarizado, feito por homens e para homens. Nos presídios mistos a situação é ainda pior, porque as necessidades das mulheres são ainda menos observadas.” A Pastoral Carcerária é uma ação da Igreja Católica que tem entre seus objetivos reivindicar condições dignas nas cadeias.