Rio tem primeira cirurgia cardíaca por vídeo em grávida
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Rio tem primeira cirurgia cardíaca por vídeo em grávida

Com 14 semanas de gestação, mulher recusou o aborto terapêutico. Operação foi realizada no Hospital dos Servidores do Estado, instituição federal

Clarissa Thomé

18 Novembro 2015 | 19h05

Médicos do Hospital dos Servidores do Estado (HSE) fizeram a primeira cirurgia cardíaca não invasiva, por vídeo, em uma paciente no início da gravidez. A intervenção ocorreu depois que a mulher recusou o aborto terapêutico, recomendado para casos como o dela, em que há risco de vida para a mãe. A cirurgia foi bem sucedida – Enzo nasceu saudável e completou seis meses. O caso será apresentado no simpósio da Sociedade Americana de Cirurgia Torácica, que começa sexta-feira, 20, em São Paulo.

 

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Fabiana Felisberto posa com os médicos responsáveis pela cirurgia. (Foto: Marcelo Santos/Divulgação)

 

Fabiana Felisberto, de 26 anos, teve febre reumática na infância, doença inflamatória provocada pela mesma bactéria responsável por infecções de garganta e pela escarlatina. Ficou com sequelas: a válvula mitral deixou de funcionar. É o popular “sopro no coração”. A doença foi diagnosticada aos 14 anos e era grave -– ela tinha indicação cirúrgica. Passou a ser acompanhada pelo Instituto Nacional de Cardiologia (INC)  e chegou a ser chamada pela primeira vez para fazer a operação, mas já tinha férias marcadas e optou pela viagem para Alagoas. “Eu era assintomática. Sempre me falavam que eu precisava operar, mas eu ia adiando”, justifica Fabiana.

Quando voltou de viagem, o estado de saúde se agravou. Começou a sentir falta de ar e a cuspir sangue. Teria de ser operada de emergência para a colocação de uma prótese no lugar da válvula mitral. Mas estava grávida de 14 semanas e os médicos recomendavam a interrupção da gravidez. Fabiana foi transferida do INC para o Hospital dos Servidores, que tem equipe obstétrica. Assim que chegou, avisou que se negava a fazer o aborto.

Além de evangélica, já havia perdido gêmeos, num aborto espontâneo, aos 20 anos. Não queria repetir a experiência. “No dia em que eu soube que esperava gêmeos, também recebi a notícia de que os corações não batiam. Fiquei com mais vontade de ter filho depois disso. Eu tive de medo de fazer a cirurgia, mas também tinha muita fé que tudo daria certo”.

A cirurgia convencional cardíaca na grávida é feita a partir do terceiro trimestre de gestação, com segurança para a mãe e risco para o bebê, explica o cardiologista Olivio Souza Neto, que chefiou a equipe que operou Fabiana, há um ano. “No primeiro e no segundo trimestre, o protocolo médico prevê o aborto terapêutico, porque há risco de vida para a mulher, que não tem condições de levar a gravidez adiante”.

Desde 2008, ele fazia a cirurgia cardíaca não invasiva, em que não é preciso abrir o tórax. São feitas três incisões pequenas, que podem ser na aureola ou na região submamária (as mesmas opções da cirurgia plástica para colocação de prótese de silicone). No caso de Fabiana, Souza Neto optou pela incisão submamária. Ela sofreu um pequeno corte um pouco abaixo da axila direita, por onde foram introduzidos instrumentos; outro mais abaixo, sob a curva da mama, por onde entrou a microcâmera; e um terceiro, quase no abdome, para a entrada do aspirador (que suga o sangue).

Durante a cirurgia, o coração fica parado. O sangue é drenado do organismo por uma incisão na virilha, oxigenado numa máquina e devolvido ao organismo, num processo chamado de circulação extracorpórea. “O grande benefício da cirurgia cardíaca por vídeo é que o paciente passa menos tempo internado, tem menos dor, tem menos chance de receber transfusões de sangue. Acreditamos que esses benefícios ajudariam a proteger o bebê”, afirmou Souza Neto.

Outra inovação na cirurgia de Fabiana: ela foi mantida à temperatura de 35º e 36º. Em geral, para reduzir o risco de hemorragia, a temperatura do paciente é baixada para 28º ou 29º. “Ao baixar a temperatura, reduzimos o metabolismo e o fluxo sanguíneo. Mas o feto poderia entrar em sofrimento”.

Fabiana se recuperou bem da cirurgia e pôde manter a gravidez. Enzo nasceu na 38º semana de gestação. “Ele é muito saudável, a gravidez foi tranquila”, conta Fabiana.  “Desde o primeiro momento, ela dizia: ‘não se preocupe, doutor. Vai dar tudo certo’. A força de Fabiana e de uma equipe multidisciplinar garantiram o sucesso da cirurgia, a primeira feita no mundo”, ressaltou Souza Neto.