Subsolo do centro histórico do Rio será revelado em site
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Subsolo do centro histórico do Rio será revelado em site

Achados arqueológicos descobertos nas escavações para a instalação do VLT na Avenida Rio Branco já estão sendo catalogados

Roberta Pennafort

12 Março 2015 | 15h48

Escavações revelaram calçamento do século 19 (Foto: Wilton Junior/Estadão)

Sob o asfalto, o calçamento que se estima ser do século 19 (Foto: Wilton Junior/Estadão)

Em 1905, a inauguração da Avenida Central, atual Rio Branco, foi um marco da modernização da cidade, que deixava para trás seu passado colonial para chegar ao século 20 “civilizada”. Cento e dez anos depois, por causa das obras para a implementação do sistema do Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT) na via, resquícios de calçamento e edificações quer seriam do Rio do século 19 estão vindo à tona, o que instiga os cariocas, tanto pesquisadores quanto transeuntes, a imaginar como era o traçado e a constituição das ruas.
Há pouco mais de três meses, operários e arqueólogos vêm localizando trechos de pedras que indicam onde passavam vias que acabaram interrompidas pela abertura da Rio Branco. E também pontos em que ficavam comércios e casas postos abaixo por ordem do então prefeito Pereira Passos (1836-1913). No fim deste ano, deve entrar no ar um site com ferramentas que permitirão aos usuários visualizar tudo isso, além de esmiuçar os diferentes níveis do calçamento. “A ideia é que seja possível fazer uma navegação pelo subsolo histórico do Rio”, explica a coordenadora-geral do Programa Arqueológico VLT do Rio, Erika Gonzalez.
Nos canteiros de obras abertos ao longo dos 1.800 metros da avenida, foram encontrados vestígios de dimensões diferentes. No trecho final da via, quase em frente à Cinelândia, foi encontrado, a 1,5 metro de profundidade, o pedaço mais interessante: uma área de aproximadamente cinco metros de extensão por dois de largura, na qual se vê destacadamente um piso que, segundo Erika, é de pé-de-moleque (técnica típica do Brasil Colônia que consistia no assentamento de pedras arredondadas sobre a terra batida). Suspeita-se que seja uma continuação da Rua da Ajuda, uma via hoje bem curta, mas que se estendia da Rua São José até a Cinelândia.
Os achados despertam a curiosidade de quem passa na Rio Branco, mesmo apressado. Na hora do almoço, é comum ver pessoas debruçadas sobre os canteiros acompanhando o trabalho. “É a história do Rio que está aparecendo. Professores deveriam vir dar aula aqui. Fico olhando e imaginando que era uma rua que se ligava ao Morro do Castelo (arrasado em 1921)”, aponta o professor de inglês Alexandre Siqueira, de 48 anos, que mantém um perfil no Facebook dedicado ao patrimônio histórico do Rio.
“Os achados são, a princípio, do século 19, mas ainda estamos pesquisando. Alguns podem ser de quintais de residências, de comércios. Estamos pesquisando a cartografia histórica e fotografias para chegar aos detalhes. No ambiente virtual, será bem palpável”, acredita Erika. “As estruturas identificadas são incorporadas a uma caixa de concreto, depois de devidamente catalogadas, isoladas e protegidas, o que garante maior preservação.”
Cerca de 30 profissionais especializados trabalham nas escavações, além de 15 que se dedicam à pesquisa e ao processamento dos dados coletados. O Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) vem acompanhando todas as etapas. Os trechos mais bem preservados podem vir a ser exibidos em algum museu.
Para o historiador e arquiteto Nireu Cavalcante, autor de livros sobre a história do Rio, o calçamento encontrado não deve ser pé-de-moleque, que é mais característico de séculos anteriores ao 19. “Esses achados são importantes para se conhecer os diferentes sistemas construtivos da cidade. As pessoas não têm ideia do que existe no subsolo”, diz Cavalcanti. Ele é contra o VLT na Rio Branco – preferia ver o centro histórico com menos impacto do transporte de massa e mais convidativo a ciclistas e pedestres.