Ameaçada a tradição de táxis Fusquinhas no Alto da Boa Vista
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Ameaçada a tradição de táxis Fusquinhas no Alto da Boa Vista

Os dois únicos motoristas ainda circulam com Fuscas no bairro temem não ter a permissão especial renovada em dezembro

Redação

18 Agosto 2015 | 17h38

Por Danielle Villela

Para vencer as ruas estreitas e ladeiras íngremes de paralelepípedo do bairro, os moradores do Alto da Boa Vista, na zona norte do Rio, adotaram como tradição os táxis no modelo Fusca há mais de quatro décadas. Mas se antes os fusquinhas dominavam o ponto do Largo da Usina, hoje apenas dois motoristas continuam circulando com o carro no bairro, com permissões especiais válidas até 23 de dezembro. “Os taxistas antigos foram falecendo, vieram os carros com quatro portas, com ar-condicionado. É muito triste pensar que não vou mais poder rodar com esse Fusca, não consigo nem pensar no que vou fazer”, disse Marcos Cardoso, 55 anos, taxista há 28 anos – sempre no Alto da Boa Vista e sempre dirigindo Fuscas.

Fusquinhas são tradição do ponto de táxi do Largo da Usina, no Rio (Foto: Divulgação)

Fusquinhas são tradição do ponto de táxi do Largo da Usina, no Rio (Foto: Divulgação)

Em dezembro de 2013, a Prefeitura do Rio publicou o novo Código Disciplinar do Sistema de Táxis, estabelecendo vida útil máxima de seis anos para os táxis. Desde então, Cardoso vive a aflição de ter que aposentar o seu Fusca modelo 1995. “Aqui sempre foi Fusca. Como as ruas são de paralelepípedo, o fusca com tração traseira sobe com mais facilidade que os outros carros. Na chuva, então, nem se fala, eles escorregam muito”, afirma. Cardoso faz cerca de 25 corridas por dia, apenas nas ruas do Alto da Boa Vista. “Não dá para competir com os carros lá embaixo”, disse.

Para manter a tradição, cerca de 400 pessoas participaram de um abaixo assinado entregue à Prefeitura do Rio há seis meses por Cardoso e seu primo, Luis Cláudio Cardoso de Azevedo, 48 anos, dono do outro táxi Fusquinha ainda atuante no Alto da Boa Vista. “O Fusca é uma paixão nacional, os gringos até param para tirar foto. É como um patrimônio histórico do Rio”, afirma.

Azevedo também possui um táxi modelo Fusca de 1995, mas deixa o veículo com um motorista auxiliar e dirige apenas à noite ou nos finais de semana. “Tem taxistas que hoje rodam com carro grande e teriam interesse em mudar para o Fusca, se pudessem. Os carros maiores quando vêm da cidade até param aqui no Largo da Usina para passar os passageiros para os Fuscas”, disse.

Marcos Cardoso, 55 anos, taxista há 28 anos, teme não ter mais permissão para circular com seu fusquinha (Foto: Danielle Villela/Estadão)

Marcos Cardoso, 55 anos, taxista há 28 anos, teme não ter mais permissão para circular com seu fusquinha (Foto: Danielle Villela/Estadão)

A recepcionista Mônica Trigo, 48 anos, não dispensa o táxi na hora de subir as ladeiras do Alto da Boa Vista. “Pego Fusca aqui desde quando eram apenas Fuscas. É o ideal para o bairro, as ladeiras destroem os outros carros mais facilmente, a manutenção fica mais cara”, afirmou. Mônica disse não ver diferença entre os carros tradicionais e os mais novos, mas reconhece que alguns moradores já não têm mais preferência pelos Fusquinhas. “Para os idosos, o Fusca pode ser menos confortável e mais difícil de entrar e sair”, observou.

Há 11 anos fora do bairro onde nasceu e cresceu, a professora Gisele Dottling, 43 anos, sente falta da tradição. “Sempre usei o Fusquinha para subir. Vendo os outros modelos a gente até acha estranho. O Fusca tem mais força, aguenta mais o tranco”, comentou.

Depois de 31 anos rodando em Fuscas, o taxista Antônio Marques dos Santos, 64 anos, já teve dois veículos modelo Gol e agora dirige um Voyage. “Não tive dificuldade nenhuma com a troca de carro, consigo subir as ladeiras normalmente, com tranquilidade. Os clientes também preferem ter mais conforto”, afirmou.

A Secretaria Municipal de Transportes informou que estuda a possibilidade de renovar a permissão especial para os dois táxis fusquinhas que circulam no Alto da Boa Vista. “A decisão será divulgada assim que for possível. O secretário Rafael Picciani ressalta permanentemente o desejo da secretaria de renovar a permissão, a fim de preservar a memória cultural do bairro”, diz a nota da Secretaria.

Os dois remanescentes da tradição respiram aliviados. “Tomara que seja verdade. É a nossa esperança”, disse Cardoso.

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