Traficante-celebridade, Beira-Mar alterou rotina de fórum no Rio
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Traficante-celebridade, Beira-Mar alterou rotina de fórum no Rio

Acenos para a família, gritos do advogado e piadas do juiz marcaram bastidores do julgamento, disputado por estagiários de direito

Carina Bacelar

14 Maio 2015 | 08h32

Quem chegasse à portaria do Tribunal de Justiça do Rio (TJ) na manhã desta quarta-feira, 13, já sabia que se tratava de um dia atípico. A entrada de câmeras de TV, em fluxo intenso até para os padrões do fórum, a circulação de policiais armados e o burburinho nos corredores denunciavam que seria julgado o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. Ele era acusado de quatro assassinatos em 11 de setembro de 2002, em um presídio do Rio. Uma das vítimas foi o também traficante Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê.

A presença de Beira-Mar, que acabou condenado a 120 anos de prisão na madrugada desta quinta-feira, 14, dividia opiniões. Alguns temiam pela segurança do prédio e criticavam os gastos públicos com o transporte do criminoso. Cumprindo pena desde 2012 em presídio federal de Porto Velho, em Rondônia, ele veio ao Rio em um avião da Polícia Federal. Chegou ao TJ de helicóptero blindado e sob forte escolta.

“Isso aqui está uma loucura”, disse uma mulher. No elevador, o assunto também era Beira-Mar. “É o traficante-celebridade”, resumiu um ascensorista.

Beira-Mar em um dos seus momentos 'sérios'. (Wilton Júnior/Estadão)

Beira-Mar em um dos seus momentos ‘sérios’. (Wilton Júnior/Estadão)

No 9º andar, à porta do 1º Tribunal do Júri, às 12h o movimento de curiosos e familiares de Beira-Mar era intenso. Às 13h, com a chegada dos jornalistas, o espaço parecia pequeno para tanta gente – minutos depois, houve tumulto no momento da entrada do público no tribunal. No meio do empurra-empurra estavam pelo menos 100 estudantes de direito, que fizeram fila por todo andar para garantir um lugar na sala.

“Mas o meu Facebook também é um veículo de imprensa”, argumentava com uma das jovens com uma amiga, lado a lado com equipes de TV.

Mais tarde, alguns dos estudantes alimentaram o Facebook com selfies tiradas entre amigos nos intervalos do julgamento, no corredor do TJ. “Mãe, vou sair de madrugada”, avisou por celular uma jovem, garantindo que dormiria na casa de uma amiga.

Quase duas horas e meia depois do previsto, por causa da ausência de nove das 10 testemunhas arroladas, Beira-Mar entrou no tribunal. Tinha a cabeça raspada, estava barbeado, vestia camisa polo e usava óculos. Sorria muito, o que incomodou o juiz Fábio Uchôa. “Quando fico nervoso eu rio”, explicou o acusado. No banco dos réus, sentado de pernas cruzadas, dava pequenos pulinhos, outra possível demonstração de nervosismo.

Articulado, Beira-Mar impressionava pelo vocabulário, mas errava alguns plurais. Contrastava com o ex-companheiro de cela em Bangu I Celso Luís Rodrigues (o Celsinho da Vila Vintém), que arrancou risadas do público ao responder quase todas as perguntas com a palavra “justo”.

Apesar das acusações, o julgamento transcorreu em clima tranquilo, por vezes cômico, até o fim. “Essa pastinha em cima da mesa é sua?”, perguntou o juiz Uchôa a um dos presentes. “Achei que era uma bomba. Bolsa velha só pode ser bomba”, complementou, arrancando risos, inclusive de Beira-Mar.

“O acusado gostou”, brincou depois, enquanto o traficante, sorridente, concordava.

Os únicos momentos em que a voz de alguém subia de tom eram protagonizados pelo advogado de defesa, Maurício Neville. Exaltado, aos gritos, ele também arrancava risadas com o jeito performático. Em um ato falho, disse que Beira-Mar vende cocaína para todos os grupos, não importa a facção.

“Vendia”, corrigiram,  em coro, parentes do traficante.

Entre as falas de juiz, promotores e advogados, Beira-Mar acenava e mandava beijos para filhos e netos, que lotavam o auditório. Uma tia dele afirmou que os parentes costumam usar os julgamentos como uma oportunidade para ver o traficante. “Ele já foi mais magro”, afirmou ela. Uma outra amiga da família, por outro lado, achava que o traficante continuava “bonito”.

Em um julgamento por quatro homicídios qualificados, havia pelo menos seis crianças da família de Beira-Mar, sendo uma de colo. Quando o Ministério Público mostrou imagens dos corpos encontrados após a rebelião de Bangu I, todas deixaram os acenos de lado e usaram as mãos, a pedido das mães, para cobrir os olhos. Nesse momento, Beira-Mar também abandonou temporariamente o sorriso que sustentou durante quase dez horas de júri.