Uma pergunta nem tão simples para Marin
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Uma pergunta nem tão simples para Marin

Ex-presidente da CBF preferiu o silêncio em sua primeira audiência em um tribunal de Nova Iorque, onde se apresentou na terça-feira

Marcio Dolzan

04 Novembro 2015 | 16h39

Era manhã de 7 de maio de 2014 e Luiz Felipe Scolari iria anunciar a lista de convocados do Brasil para a Copa do Mundo dentro de pouco mais de uma hora. O local escolhido para o anúncio era o Vivo Rio, uma grande casa de espetáculos localizada no centro da capital fluminense, já que 900 (isso mesmo, novecentos) jornalistas eram aguardados. Era preciso espaço.

Os repórteres chegavam aos borbotões e, aproveitando que naquele momento o lugar era o centro das atenções País afora, um grupo de policiais federais do Rio resolveu protestar bem em frente ao Vivo Rio, situado no Aterro do Flamengo. Era grande a movimentação pelo pátio.

Naquela manhã, a reportagem do Estado pegou um táxi para chegar à sede provisória do futebol brasileiro. Vendo o movimento na parte da frente do prédio, o motorista decidiu seguir para o estacionamento, que ficava na parte de trás. “Vou só deixar os passageiros”, ele disse a um segurança. A passagem foi liberada sem maiores cerimônias.

José Maria Marin achou melhor não falar (Foto: Wilton Junior/Estadão)

José Maria Marin achou melhor não falar (Foto: Wilton Junior/Estadão)

Ao descermos do táxi, avistamos José Maria Marin, então presidente da CBF. Ele havia optado pela porta dos fundos para evitar a inevitável abordagem de jornalistas. E um colega, mesmo de longe, não perdeu tempo: “gostou da lista, presidente?”. Marin se virou, fez uma saudação com a mão e foi sucinto. “Muito boa, muito boa!”

A pergunta teve um caráter de “tudo certo, presidente?”, mas também escondia uma indagação astuta, que talvez José Maria Marin não tenha entendido naquele momento. Um mês antes, o cartola havia declarado à revista GQ que queria conhecer o nome dos convocados para a Copa do Mundo com pelo menos dois dias de antecedência.

“Como eu sempre fiz, quero a lista 48 horas antes. Pra que hipocrisia? Você acha que ninguém sabia da lista antes de anunciar? Pra que essa hipocrisia?”, disse Marin à publicação. “Se eu achar estranha a convocação de um jogador, eu vou falar com ele (Felipão).”

Nessa terça-feira, quase um ano e meio depois daquela manhã no Vivo Rio, Marin chegou para a sua primeira audiência em um tribunal nova-iorquino. Tal qual com a lista do Felipão, ele entrou na corte já sabendo o que viria pela frente. Na saída, foi cercado por jornalistas e ouviu uma pergunta simples de uma repórter, “como é que o senhor está se sentindo?”. O ex-cartola, por cansaço ou por precaução, dessa vez preferiu não responder. A indagação poderia ser astuta demais.